QUARTETO A FINADO
Sávio Pinheiro

– Não é querendo me gabar, não! Mas sem uma boa enfermeira, nenhuma unidade básica de saúde consegue ter êxito em todas as ações. Além das consultas de enfermagem, temos que fazer o controle epidemiológico e dar conta da vacinação de toda a população. Não vou nem citar o que é exigido por fora para não criar caso. Daí, exigir um tratamento justo.
– Concordo com você, mas desejo externar que o médico também tem grande importância no processo sanitário. Na maioria das vezes, sem condições técnicas adequadas, tem que se fazer de bombeiro para abafar o fogo cruzado entre os gestores e a população. Daí, exigir como você, um tratamento respeitoso.

Enquanto os dois profissionais da saúde de um distrito localizado entre Matozinhos e a Lardânia discutem, um calmo senhor de tez escura e cabelos grisalhos, voz mansa e pausada, consciente dos seus atos e dos seus ensinamentos e dotado de um poder hereditário e secreto, reverbera: – não esqueçam que eu também ajudo muito a população, pois quando vocês não dão conta dos problemas e das doenças pelas vias normais da ciência, sou eu que resolvo. E com um detalhe, nunca reclamo de nada, mesmo ouvindo piadinhas a meu respeito. Sou mais ouvidos, do que língua. Também exijo ser bem tratado.

Uma quarta pessoa, franzina e desprovida de beleza, que todas as tardes fica rondando o posto de saúde para escapar do sol escaldante, debaixo das árvores, na perspectiva de prevenir o terrível câncer de pele, após ouvir estes diálogos, resolve meter o bedelho sem dó nem piedade. – Vocês ficam aí se vangloriando, contando pabulagens, querendo ser melhores do que os outros, só porque estudaram ou tiveram um ensinamento diferente, mas deviam saber que quem dá a palavra final na saúde aqui, sou eu. Sou discriminado, mas não ligo nem baixo a cabeça para nenhum de vocês. Sou o mais poderoso. Digo e não peço segredo. E quem achar ruim, que bata em mim!

O esquálido visitante fala sério, sem temor, de maneira firme e contundente, parecendo se sentir totalmente independente e sem amarras. Ou é desprovido das faculdades mentais ou não se mostra incomodado com a concorrência. Demonstra ser um profissional de ofício rígido, porém consciente do que faz e diz. Uma inusitada autarquia ambulante, afinado consigo mesmo e com sua arte.

Sabemos que o sistema único de saúde é composto pela atenção terciária (serviços altamente especializados), a atenção secundária (sistema hospitalar de média complexidade) e a atenção primária, considerada a porta de entrada do sistema. Esta, se funcionasse a contento, daria resolutividade a 85% das mazelas da saúde pública do país. Pois bem, se vocês estão curiosos em saber quem são os dois últimos personagens da história, acreditem. Num lugar equidistante entre Matozinhos do Dr. Zé Flávio Vieira e a Lardânia de Valeriano da Rajalegre, dois visionários da ficção, concluo: os autênticos profissionais deste enredo, que se falam todas as tardes, são o rezador e o coveiro. Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

Competente na várzea e na ribeira,
nas entranhas do corpo, no dramático,
nos mistérios da alma, no fanático,
vejo assim a Ana Nery brasileira.

Receitando com ética verdadeira
o discípulo de estilo hipocrático
de padrão e modelo pragmático
cura o mal e a doença desordeira.

Se ascendo ao etéreo vejo o enigma,
as visões, os milagres, o estigma,
a acurácia sagaz do rezador.

Porém, quem traz poder e vocação
para agir muito além do coração
é o coveiro, que enterra a nossa dor!

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