VÁRZEA ALEGRE JÁ TEVE TREM?

A malha ferroviária brasileira volta a tomar corpo no nosso país diante da retomada de uma política pública assaz importante para facilitar a circulação de produtos agrícolas e industriais com consequente melhoria nas tarifas dos transportes de cargas. No início do século XX, o Ceará construiu vários trechos de linha férrea interligando o interior do estado ao porto do Mucuripe trazendo grande desenvolvimento às regiões, não só no setor comercial, mas também na locomoção de pessoas e na difusão da cultura e da informação. Foram quase 1.500 Km de trilhos fincados na aridez do nosso chão, fato que trouxe enorme progresso e desenvolvimento às áreas mais distantes do litoral.

Um caso curioso que sempre transtornou minha mente e minha autoestima foi sobre o possante cavalo de ferro. Não conseguia absorver nem entender a ideia que não houvesse trem na minha cidade natal. Passei muitos momentos da infância e adolescência sofrendo bullyng sobre tais acontecimentos. Ter trem ou não ter trem, era a questão. Imaginem vocês, ter que suportar as histórias majestosas dos vizinhos cedrenses falando que Várzea Alegre jamais tivera trem e que nunca a teria. Era uma afirmação triste e dolorosa. Tentava suportar tão visível superioridade mostrando avanços em outros setores, porém por mais que eu demonstrasse, a conversa findava sempre como começara. Várzea Alegre não tem trem!

Até em casa, no momento da ceia matinal, a famosa merenda com pão de arroz, exclusividade nossa, não conseguia esquecer a intransigente onomatopeia “café com pão, bolacha não!” simulando o rosnar de um trem. Se eu tocava o sino da igreja, uma das minhas proezas da infância, me vinha à mente o sino da estação anunciando a chegada do grandioso transporte de apito majestoso. Era um sofrimento sem fim saber que para viajar tinha que me dirigir àquela cidade e esperar o trem nosso de cada dia. A linha férrea da Rede Viação Cearense – RVC fazia a diferença. O destino estava traçado.

Com o tempo, a vital ferrovia foi se diluindo até acontecer o colapso quase que total de tão importante meio de deslocamento. O transporte rodoviário, aos poucos, ia tomando o seu lugar. Foram construídas estradas de rodagem e via asfáltica. Os caminhões, os carros de passeios e as motocicletas iriam tomar assento e assumir o posto, mas na minha memória iria ficar guardada a poética estação. Os trens que tantas vezes me levaram à Iguatu para visitar meus avós e que um dia me levou à Recife para estudar, no famoso Sonho Azul. Precisamente no quilômetro 468 do trecho cearense era o local de partida para mim, enquanto para os cedrenses, era o de chegada. Mas, pasmem! A história não acaba aqui. Na leitura da Antologia Literária do Centenário do Cedro, uma agradável viagem.

Em 1919, venceu o pleito eleitoral de Várzea Alegre, o Senhor Dudau, dono do cartório e chefe político local. A disputa se deu com o candidato indicado por Joaquim Alves dos Santos, político do Jacu, distrito da cidade – hoje, Candeias, distrito do município de Cedro CE. Este, não queria se atritar politicamente com o seu amigo, que havia rompido com o grupo político de José Acioli, a nível estadual. Mesmo assim, foi convencido ao embate, já sabendo que perderia a eleição. O acordo proposto por Acioli era emancipar, após o pleito, a fazenda Cedro, propriedade de João Cândido da Costa, um povoado em crescimento devido à Rede Ferroviária Cearense – RFC, desde 1915. Cedro passou à vila em 09 de julho de 1920, sob a gestão do governador João Tomé, a três meses do fim do pleito, e à município em 21 de outubro do mesmo ano, onde já era governador Justiniano de Serpa, porém com o ex-governador no senado. Moral da história: Várzea Alegre já teve trem! Encerro a “terça boa em prosa e versos” com um soneto.

No apito, um aboio majestoso;
na saída, uma cobra sobre o chão;
na chegada, o sino da estação;
na memória, um mimo primoroso.

Na espera, a família, a emoção,
o relato, as histórias de Trancoso,
o perdão de um inimigo raivoso,
as batidas do ingrato coração.

Se não pude viver a fantasia
nem tampouco conter a ousadia
do ausente e vital café com pão.

Posso ler e entender a Antologia
que nas páginas, a história pronuncia
o sofrer de não ter bolacha, não!

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