O MORTO-VIVO
Sávio Pinheiro

O velório sempre foi um misto de tristeza, para os sofridos; de humorismo, para os ousados; de alegria, para as carpideiras; de lucro, para o grupo de apoio. Um local de reencontro, às vezes, entre irmãos que há anos não se viam e de devotos que choram de emoção com a sonoridade do Pai-Nosso ou a fala do pastor. Um lugar místico, mítico e de laicismo na imorredoura tradução da palavra.

Os médicos, profissionais da enfermagem e religiosos sempre estiveram muito próximos dos mortos e das famílias na hora da ruptura. O impacto é sempre doloroso e requer preparação psicológica para a condução do ato comum. Os familiares mais próximos, cansados pela dedicação exclusiva e elevada carga emocional entram num desespero inconsciente, difícil de se lidar. Todavia, em minutos, o ambiente volta ao normal para os procedimentos de praxe. É como se uma trégua fosse exigida num momento de dor. Uma cena imutável que acontece há milênios.

Os velórios no domicílio, antes mais frequentes, ainda ocorrem em aglomerados rurais de difícil acesso. São exceções presenciadas por poucos, daí a importância de uma cobertura literária e registro fidedigno para interpretações outras. A equipe de saúde chega à pequena casa, onde jaz na sala da frente um corpo inerte rodeado de flores naturais. No alpendre acimentado da singela residência, sente-se um cheiro adocicado e um leve soluçar de uma senhora, sentada em uma cadeira de balanço, com uma toalha de banho envolta no pescoço imitando um cachecol. Após os cumprimentos de pesar, fomos ao moribundo, para o desfecho do atestado de óbito. Sem ele, o sepultamento não aconteceria, mesmo estando preparado na urna funerária.

Algumas pessoas se aglomeravam em volta do caixão com choramingas e rezas improvisadas, uns cochichando baixinho e outros tomando chás e cafés açucarados. A aglomeração ainda era permitida na época do ocorrido, apesar da transmissão de outras viroses também ocorrerem. Para a equipe, uma cena corriqueira. Quando nos aproximamos do falecido para a constatação do óbito, uma cena inusitada nos chama a atenção.

– Não mexam com ele! Seu sofrimento foi muito grande!
– Calma, senhora! Só vamos examiná-lo. Faz parte do nosso trabalho.
– É que estou muito nervosa! Não consigo me controlar com a sua partida!
Falava e chorava, de maneira estridente, a mulher em lágrimas.
– Quer um calmante?
– Não!
Reverbera alto e em bom som para todos os presentes. Após o ocorrido e com o atestado de óbito em mãos, pergunto:
– Quantos anos vocês tinham de casados?
Ela, prontamente, responde:
– Eu não era a esposa dele e sim a sua cunhada!
Um parangolé, que ao meu lado ouvira tudo, retruca:
– Esse aí, pelo que me consta… É um Morto, Vivo!
Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

Ao sentir tristes auras epilépticas
vislumbrava estrelinhas cintilantes,
cefaleias e males delirantes
antevendo agruras catalépticas.

Minha letra era a cópia das disléxicas,
que traziam na escrita ações distantes,
mil fonemas de sons alucinantes,
mil palavras de espécies anoréxicas.

Com doenças de traços patológicos
e linguagens de cunhos pedagógicos
o enfermo imitava um morto-vivo.

E hoje, inerte, coberto em seu esquife
cai a máscara de quem já foi patife
confirmando que foi um Morto, Vivo!

 

 

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