QUERO A MINHA DEPRESSÃO DE VOLTA!

Sávio Pinheiro

 

O Câncer de Mama é uma doença que, ainda hoje, fazvítimas em todo o mundo, apesar dos trabalhos direcionados para a detecção precoce e a prevenção primária. No homem, o aparecimento é bem mais raro, porém igualmente danoso. Alimentação saudável, atividade física e a não prática da auto medicação são condutas corretas para evitá-lo.

 

Certa vez, um agente de saúde me pediu para examinar o seu avô, que estava pálido, sem vontade de comer e de desenvolver suas atividades agrícolas. Tentou levá-lo ao posto, sem êxito. Concordou com a visita do médico no domicílio. Ao adentrar em sua casa, num ponto elevado do terreno, uma corrente de ar puro com cheiro de matoanuncia porque certas pessoas preferem viver mais no campo, do que na cidade.

 

– Bom dia!

Fala o médico, cheio de vigor, com o clima e a paz da casa naquela manhã de sol.

– Bom dia!

Responde o paciente com uma voz menos eloquente que a do esculápio, demonstrando humildade e hesitação.

– O que o senhor está sentindo, Seu Luiz?

O profissional pronuncia o nome do enfermo olhando para o seu prontuário, que guarda os dados e a história clínica de toda a família.

 

Após ouvir com atenção a história do agricultor em pânico e examiná-lo com o respeito que a situação exigia, o médico explica a suspeita da doença e pede-lhe para fazer os exames necessários. De princípio, ele reluta, mas acaba cedendo. Após algumas semanas é confirmado o tumor maligno de mama e o risco que ele corre, caso não queira cumprir fielmente o tratamento que lhe fora indicado. A retirada do tumor, seguida de radioterapia e quimioterapiafoi o tratamento proposto.

 

As semanas vão passando e ninguém consegue lheconvencer da importância do tratamento e comoaumentariam suas chances de sobrevivência. Médico, enfermeira, psicóloga, esposa, filhos e netos tentam de todas as maneiras. Tudo em vão. Diz que não vai ao hospital e que quer morrer em paz, junto dos familiares, em sua casinha. Finalmente, o desfecho. Alguns dias depois do sepultamento, a família chama novamente o médico. Desta vez, para medicar a dedicada companheira.

 

– Desde o dia do desenlace, que a minha avó não come, não dorme, não conversa e chora o tempo todo. Está ficando magrinha e chamando a atenção das pessoas. Estou muito preocupada. Quero que prescreva uma medicação para ela.

A paciente resistia ao fato de ir ao psiquiatra. Só em pensar, já lhe causava arrepios.

– Vão dizer que estou louca. Não quero!

 

Sem haver outro jeito de ajudar a pobre senhora, o médico resolve prescrever um antidepressivo. O plano funciona. Em três semanas, ela já se alimentava, conversava e dormia com tranquilidade. A família agradecida presenteia o médico com uma galinha. Uma semana depois, a paciente quer outra consulta. Só, que a sós.

Não vou mais tomar este remédio!

– Mas porquê, senhora?

– É que eu parei de chorar… E as pessoas podem pensar que esqueci o Luiz!

Encerro o texto da terça boa em prosa e verso com um soneto.

 

Quando Deus une o par em comunhão

já escreveu o que é certo em linhas tortas,

já mandou para o ar as folhas mortas,

já marcou para sempre a retidão.

 

Ao casal, se deu paz e comunhão

na missão de abrir novas comportas,

também quis irrigar as belas hortas

floreando o cenário da união.

 

Mas se o mal traz em si a incumbência

de acabar com o vigor da permanência

não nos cabe o poder de reclamar.

 

Confirmado que o fim fora escrito,

quem sou eu, pra hesitar do que é finito

e da aura mais pura deste olhar?

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