COTOCO, ÉTICA E FISOLOFIA

O cotoco, um ato obsceno que se usa para ofender outra pessoa, foi tema recente de discussão devido ao indecoroso gesto do ministro da saúde do Brasil, ao enfrentar opositores políticos nos Estados Unidos. Duas histórias interrelacionadas com o episódio saíram da intimidade da minha memória, de imediato.

A primeira delas, ocorrida em 1970, quando Madre Celina, da Congregação Filhas de Santa Tereza, sem querer alterar a rota em que vinha, continua andando pela calçada do Palácio das Laranjeiras, sede do governo do Rio de Janeiro. Estava interditada para pedestres. Mesmo assim, ela resolve ignorar as ordens da instituição e passa por debaixo das cordas. Fez-se de desentendida e avançou, mas logo foi surpreendida pelo estalido de um apito produzido por um guarda palaciano. Não deu atenção e continuou caminhando. Ouviu o memo som pela segunda vez e, num ímpeto, se voltou para trás e com o dedo médio em riste deu um desaforado cotoco ao guarda. Foi detida e convidada a prestar esclarecimentos a um superior da segurança do governador. Ao ser intimada a mostrar os documentos, mentiu ao dizer que os tinha esquecido. Agiu dessa forma, pois na foto, estava com as vestes de freira, e não queria envolver a congregação em um escândalo. Foi pior, pois acabara de cometer um segundo delito. Por ser mulher, foi convidada apenas a explicar a razão daquele ato intempestivo. Verbalizou a contento: “sou do interior do Nordeste, e lá, dar cotoco não é crime, é apenas uma má criação!” Levou uma advertência e foi liberada.

A segunda, quase na mesma época, aconteceu em Várzea Alegre CE. Um comerciante, nos meados da oitava década de vida, estava trabalhando no seu estabelecimento comercial, quando chega uma jovem moça, de aspecto rude, cabelos despenteados, demonstrando ares de revolta contra si mesma e com o mundo.
– Qual o preço do quilo de arroz?
– O comerciante, calmamente, responde.
– E do quilo de feijão?
– Novamente, ele responde demonstrando zelo com a clientela.
– E por que o preço daqui é maior que das outras bodegas?
– Nosso preço é tabelado, moça. Não estamos cobrando mais caro que as outras.
A jovem, sem dar ouvidos ao pobre homem, que já devia estar aposentado, mas necessitava complementar o orçamento doméstico, reverbera em alta voz.
– O senhor não se envergonha de roubar os próprios clientes? Um velho… Já dessa idade! Devia era ser preso para aprender! Nunca mais compro aqui e ainda vou fazer propaganda contra o senhor. Eu devia era lhe denunciar para a polícia. Velho ladrão!
Falou horrores para o comerciante que se manteve tranquilo, na posição de pé, porém sempre com uma das mãos enfiada no bolso da calça, dando a impressão que poderia sacar algum objeto e promover algo mais danoso. Um outro freguês, que assistira toda a cena, presencialmente, temia que o pior acontecesse. Será se ele vai sacar uma arma e cometer um crime, devido a impetuosidade do momento? Ou um punho inglês, podendo quebrar de vez o rosto dessa louca desvairada? Ou está com medo de ser agredido, por se achar velho e sem forças? Ou não fará nada, por entender que não vale a pena se desgastar com um episódio perdido na sua própria história? Passados alguns segundos, que pareceram horas, o expectador pergunta, indignado, ao bem humorado e compassivo comerciante:
– O senhor não fez fazer nada com aquela peste bubônica, filha de uma égua?
– É que você não viu o tamanho do cotoco que dei pra ela, daqui do meu bolso!
Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

Quando a raiva se mostrar, ferir-te a mente,
sem motivos que te faça enlouquecer
não te entregues ao estímulo do prazer
nem mergulhes numa lógica deprimente.

Crie princípios, garantias, seja gente,
repagine o despreparo do teu ser,
arremeta as imprudências do sofrer
num juízo que terás eternamente.

Sem afrontar, desenvernize de outro jeito
o inimigo, o desumano, o imperfeito
abusando da essencial pedagogia.

Tendo cérebro, paz e ética: o reembolso!
No cotoco bem guardado do teu bolso
farás crer e compreender filosofia.

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