BANHO DE SINCERIDADE

A sinceridade é misteriosa. Para alguns, uma atitude nobre que dá dignidade a quem a pratica. Para outrem, uma fonte impactante de desavença. A lhaneza como prática do bem é virtuosa, porém pode se tornar ineficaz em determinados momentos. A “verdade dói!” O ser humano não foi feito para suportar a nudez de sua mente.

O banho, mergulho de um corpo em meio líquido, tem como finalidade essencial a limpeza corporal. O hábito de levar esse costume para dentro de casa ou ambientes públicos vem dos romanos. No Oriente, a prática coletiva de higiene serve também de convívio, principalmente no Japão. Os europeus inovaram o exercício do banho pela facilidade que tinham em aquecer a água. No Brasil, o costume é oriundo do indígena.

Sem entrar no mérito das liberdades individuais, existem os muito sinceros que deixam mágoas e os adversários do banho que deixam estranhos odores. O mundo é plural, daí a possibilidade da sobrevivência cognitiva. Se pensássemos ou agíssemos da mesma forma, com certeza, a vida seria sem graça e tediosa.

Certa vez, um esculápio atende na emergência do hospital um paciente muito grave. Espumando pelo nariz e boca, cansado, pernas muito inchadas e com baixo nível de consciência. Com diagnóstico clínico de edema agudo de pulmão, o médico interfere de imediato com oxigênio e medicação específica, conseguindo salvar mais um, prática diária de quem trabalha com a saúde alheia. Um exame mais cuidadoso, constata que ele tem uma insuficiência no coração. Teria que tomar remédios o resto da vida, mas não morreria daquela crise.

Após a chegada dos filhos, de São Paulo, ele melhora ainda mais e não para de repetir a história que chegara morto ao hospital e fora ressuscitado por um médico abençoado. A gratidão dele era imensurável. Um sorriso que dava gosto de se ver. Porém, surge um problema sério para a enfermagem e familiares. O paciente ficava irritado só em ouvir a palavra banho. A família utilizou todas as técnicas possíveis para conseguir o intento, sem êxito. Até que um dos filhos, mais diplomático, teve uma ideia que, provavelmente, resolveria o imbróglio criado.
– Se o médico pedir, ele não vai se negar!
– Excelente ideia! Uma solicitação dele com certeza será aceita.

O discípulo de Hipócrates, conhecedor das trilhas da mente humana e dos inimigos do banho; e sabedor da história da família real brasileira, desde D. João VI até D. Pedro II, tinha convicção plena que a tarefa não era para amadores. Todavia, topou o desafio. Organizou uma estratégia e, no dia seguinte, a pôs em prática.

– Bom dia, Seu Malaquias! Como o senhor está? Sempre melhor do cansaço?
– Posso dizer que já estou é curado. Doido pra ira pra casa!
– Vou assinar sua alta. Hoje mesmo, o senhor vai para casa. Os seus filhos são muito bondosos, juntamente com todos os familiares.
– E a receita, o senhor já fez?
Pergunta o paciente já se sentido sob o teto do seu lar. Repleto de alegrias.
– Já entreguei para sua esposa. Acho que ela já mandou comprá-los. Lembre-se que precisa obedecer a todas as orientações médicas. Nada deve ser esquecido!
– Vou cumprir “tim-tim por tim-tim”. Pode ter certeza.
– Pois quando chegar em casa, peça à esposa para preparar uma bacia de água morna, assim o senhor toma um bom banho e vai se sentir ainda melhor!
– Doutor, eu vinha gavando o senhor, até hoje. Mas vejo que também já está contra mim. Vou lhe dizer uma coisa…
O paciente, de olhos arregalados, pele vermelha de raiva, ofegante como um burro brabo eleva o braço direito com a mão espalmada, simula um gesto como se fosse abrir a própria cabeça em duas bandas, e retruca.
– Acho melhor uma laxada de lenha no meio da minha testa, que tomar um banho!
Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

Se é de álcool, a febre é passageira;
se é de cheiro, o aroma se refaz;
se é de sol, pele clara se transfaz;
Se é de rio, se esvai toda a sujeira.

Se é de bola, a jogada é de primeira;
se é na prova, a boa nota é costumaz;
se é de chuva, o voo livre ostenta a paz;
se é de amor, a nudez é mensageira.

Há um banho, porém, que se anuncia,
que faz ponto e desgruda a hipocrisia
nas profundas pedreiras da lealdade.

É o enxágue da mente intransigente,
a permuta do mal inconsequente
no anúncio sincero da verdade.

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