DÁDIVAS E DORES
Sávio Pinheiro

O enredo da divina tragédia humana nos remete a pensadores da estirpe do florentino Dante Alighieri e do cearense Belchior. O primeiro, em sua viagem poética ao mundo dos mortos vislumbra personagens históricos, de todos os tempos e lugares, inclusive amigos e inimigos, nos círculos concêntricos do inferno, nos degraus do purgatório e nos céus do paraíso. O segundo, em sentido contrário, poetiza os ideais do mundo dos vivos sem dar ouvidos ao contraditório dos analistas. Quando canta: “eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno, viver a eterna comédia humana onde nada é eterno”, ele deixa bem claro o seu pensamento. Tais imagens também se chocam com o estilo parnasiano do poeta Olavo Bilac, de “Ora (direis) Ouvir Estrelas!”, onde externa na última estrofe de um soneto: “E eu vos direi: Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e entender estrelas.”
Não é querendo ser metido, mas o arrodeio se faz necessário para a compreensão da história de hoje. Sem abusar do fingimento poético, sabemos que existem diferentes formas de ações, reações, pensamentos e oportunidades. Não podemos inquirir que o grande amor do poeta Olavo Bilac foi maior ou menor ao de Belchior, já que ambos possuem características próprias do eu lírico ou do realismo exacerbado. O que pretendemos discutir é sobre os revezes da vida, sobremaneira, da mudança constante do corpo-bolso-mente da trajetória humana no espaço compreendido entre o nascimento e a morte. Devemos viver o momento “que o adentrou como um sol no quintal” no espírito do compositor e filósofo Belchior ou seguir o lirismo do apaixonado Olavo Bilac? No hoje, a pura emoção. No amanhã, o imprevisível fim.
Num cenário de luxuriosos, violentos, mentirosos são comuns tristezas e tragédias. Se a conjuntura for de éticos e honestos, a alegria prevalecerá. Daí, a sobrevivência ser mais saudável no grupo que conseguir compreender melhor os diferentes. A pluralidade forma o contexto atual. O domínio do humor, da personalidade e das aptidões pessoais está nas mãos de cada um. Não existem mais verdades absolutas.
Inúmeras vezes, na longínqua adolescência, fiquei “mais angustiado que um goleiro na hora do gol” ao ver passar nas calçadas da cidade uma figura magra, enigmática, de cabelos ressecados, juntas inchadas, feridas abertas na pele, marcha lenta e voz entrecortada. A desnutrição era visível aos olhos de qualquer um. A pobre mulher, vestida em farrapos, alimentava-se do seu bom humor, favores e lembranças. As reminiscências lhe ajudavam a seguir o trágico destino, mesmo sofrendo humilhações de cunho pejorativo. Era conhecida por Zefinha Dadô. A curiosidade me induzia a pensar no real motivo daquela alcunha. Claro que a razão do codinome era o peso das suas dores físicas e psicológicas. Quanto a isso, não havia dúvidas. Eu sentia pena daquele sofrimento diário, que sempre se repetia. O destino daquela mulher fora traçado e estava sendo executado com crueldade. Certa vez, expus para ela o que pensava do seu curioso nome de guerra. De imediato, meneou a cabeça e me narrou que a motivação do seu apelido jamais fora as insuportáveis dores.
– Quando eu era nova, fogosa, de coxas firmes e cintura de pilão, que passava por estas calçadas, os homens, descaradamente, falavam alto e em bom tom:
– Zefiiiinha, tu dá?
– E eu, completamente sem noção, mas feliz, respondia:
– Dô!
Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

Fixou-se no espaço do ventre materno
um par de gametas de luz secular
luzindo no corpo de quem quis amar
na vasta extensão de um céu, que é eterno.

No texto encardido do tosco caderno
a vida executa um enredo sem par,
a moça bonita – textura exemplar –
transforma-se em pó no estágio moderno.

Então, urge a fúria que mata o prazer
expondo as mazelas do vil perecer
e apaga o sete pintado nas cores.

Sem ouro, sem prata, sem grana e riqueza
sem pele, sem rosto, sem amor nem beleza
só resta aguentar o tormento das d

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