BERÇO ESPLÊNDIDO

Quem não conhece a expressão do Hino Nacional Brasileiro, de Joaquim Osório Duque Estrada, cujo significado se refere ao continente americano – mais especificamente à América do Sul – onde o Brasil está localizado? Na primeira estrofe da segunda parte brilham, sob a imensidão do céu, os sonoros versos que referenciam o país criado pelo Novo Mundo e banhado pelo Oceano Atlântico. Na trilha do primeiro pé, “Deitado eternamente em berço esplêndido”, demarcamos um assunto relevante.

Muitos intelectuais, artistas e cientistas tiveram oportunidades e condições de serem o que são, através da genética, do poder, do dinheiro e da oportunidade adquirida. Um lastro de saber já se perpetuava no berço de cada um, através dos antepassados ou contemporâneos, que os levariam a atingir os objetivos desejados. Um outro grupo, sem berço esplêndido, teria que percorrer caminhos inimagináveis para tentar atingir o topo da pirâmide cultural. Mesmo os iluminados, de admirável tirocínio e inteligência, se deparariam com obstáculos, muitas vezes, intransponíveis.

Se focarmos nos grandes vultos da história, descobriremos diferenças importantes na rota das oportunidades. No Brasil, citamos como exemplo o compositor Chico Buarque, que apesar da sua grande capacidade intelectual e inteligência se locupletou com as benesses no campo familiar desde a semeadura. Ser filho do intelectual Sérgio Buarque de Holanda e sobrinho do dicionarista Aurélio, não é para qualquer um. No Ceará, José de Alencar, autor de Iracema, a virgem dos lábios de mel, detinha força política e financeira que o distanciava dos seus pares. A Academia Cearense de Letras, fundada três anos antes da Academia Brasileira de Letras, não era diferente. A maioria dos imortais faziam parte de uma bem selecionada elite com múltiplas oportunidades.

Ao fixarmos o olhar nos famosos de origem humilde, observamos uma mudança radical nas estratégias. Uma música mais simples e uma literatura menos acadêmica são necessárias para atingirem um público menos exigente. Alguns criam direcionamentos seletivos no intuito de atingirem seus objetivos. Precisam encontrar um atalho para a execução de suas metas, já que a plateia é outra, igualmente sem oportunidades. Buracos negros são planejados para a vital sobrevivência. O interessante da história é que temos esse público em abundância, daí necessitarmos de leitores mais exigentes.

Diante dos fatos, tento usar a racionalidade do meu pensamento, imaginando como será a educação da atual geração. E aqui, incluo meu neto Samuel, no quinto mês de vida. O que devemos fazer? De longe, observo o avô Xico Bizerra, cratense radicado no Recife, poeta de primeira grandeza, correndo atrás do futuro de Bernardo, Vinícius e Leonardo. De repente, uma ótima notícia me chega, através da mídia digital.
– Pai, trago uma novidade que o senhor vai gostar!
– Coisa boa! Diz logo, senão fico ansioso.
– Escrevi o Samuel no Clube do Livro.
– Como assim, em tão tenra idade?
– São livros mensais, direcionados às crianças pequenas, para serem visualizados e folheados no próprio berço.
– Que reviravolta. Se a cultura dele não é de berço, doravante será no berço!
Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

Nos assentos forrados da linhagem,
nos esplêndidos berços da nação
nasce forte o pulsar da erudição
sob a espuma da clássica linguagem.

Na escassez do saber, a aprendizagem,
em que há muito, no tempo, era ilusão
quis pousar sobre as mágoas da razão
na estrada acadêmica da viagem.

Se de berço, não viste o pôr do sol
nem a nuvem vermelha do arrebol
siga o vento e esqueça o prejuízo.

Se o fizeres no grau da inteligência
honrarás com o vigor da sapiência
as pendências do Dia de Juízo.

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