OS CAMINHOS DA MORTE

O que sabemos é que o desencarne define tudo. Coloca um ponto final. Se é bom ou ruim, necessário ou traiçoeiro, é ele que se sobrepõe; que dá a última palavra; que desfaz a dor e alivia a lástima. Este raciocínio é válido para casos crônicos, esperados. A morte súbita em jovens não cabe aqui, pois sua agressividade é muito grande e inexplicável. Um luto extremo, cruel e desumano. Uma ruptura da vida com a linha do tempo. Um tropeço do destino. Um futuro quebrado no nascedouro. Uma trágica viagem. Um golpe fatal. A morte prematura chega a ser excitante pela surpresa e comoção, diferentemente da programada, que é mais madura e sentimental.

Quando o óbito é aguardado e promove sofrimento duradouro, mexe muito com o estado mental das pessoas. Seja no plano terreno ou espiritual, é ela que modifica a rotina familiar e dá seguimento à normalidade humana. A miséria, a fome, a senilidade improdutiva, o câncer, a doença mental, o Mal de Alzheimer são exemplos claros de cronicidade. No momento, seríamos injustos em citar a morte sem lembrar do poeta Augusto dos Anjos, paraibano dos bons, muito criticado por trazer à tona um assunto tão macabro e desprovido de lirismo. “É a Morte – esta carnívora assanhada – / Serpente má de língua envenenada / Que tudo que acha no caminho, come…”

Outra forma de sofrimento estaria vinculada, não à vítima tão somente, mas aos familiares detentores dos cuidados. De repente, o cônjuge, os pais e os filhos se veem numa seara de tamanho incerto. E Não tendo como identificar o limite do problema, a inquietude aparece para alterar a normalidade psicológica, até então estável. A rotina, as ambições profissionais, a obrigatoriedade das ações causam um descompasso na vida familiar, levando a reações, algumas vezes, não compreendidas. Os entes queridos, cansados e estressados, rogam a Deus para o milagre da superação e da paciência.

Para falar de Deus e suas relações com o mal, o amor, a crença e o sofrimento humano, dois grandes poetas conterrâneos e contemporâneos escreveram coisas muito parecidas sobre o tema. Augusto dos Anjos, falecido em 12 de novembro de 1914, com apenas 30 anos de idade, no primeiro e segundo quartetos de um soneto, disse: “Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo / Ser que preside e rege os outros seres / Que os encantos e a força dos poderes / Reúne tudo em si, num só encanto? // Esse mistério eterno e sacrossanto, / Essa sublime adoração do crente, / Esse manto de amor doce e clemente / Que lava as dores e que enxuga o pranto?!” e Leandro Gomes de Barros, falecido em 04 de março de 1918, num poema de cordel, em sextilhas, indaga a Deus, em sua derradeira estrofe: “Por que existem uns felizes / E outros que sofrem tanto? / Nascemos do mesmo jeito, / Vivemos no mesmo canto. / Quem foi temperar o choro / E acabou salgando o pranto?

No contexto da morte, do sofrimento, da responsabilidade e da permanência ao lado do marido, que sofre de câncer terminal com dores terríveis e caquexia extrema, a cansada mulher executa sua primeira atividade doméstica. Varre, com vassoura feita de galhos secos, o terreiro da casa de pouco conforto. Com corpo franzino, vestido simples, semblante triste e pele pegajosa faz o seu balé matinal. Um cavalheiro andante, em trote faceiro de um cavalo alazão, se aproxima da enigmática cena.
– Bom dia, comadre Zefa!
– Bom dia, compadre Bastião!
– Como está o compadre Belizário? Teve alguma melhora?
Dona Zefa, no auge da sua inocência, sem premeditar ou medir frase alguma, responde com simplicidade e delicadeza.
– Ele ainda tá rendendo…

Ativa e sorrateira em chão molhado
a cobra pega a presa e a morde forte,
que jaz e se maldiz à própria sorte
e expira no revés do céu nublado.

A onça em tom faminto e arrebatado
demonstra, consciente, o grande porte
e faz sobre a matéria um grande corte
trazendo, em sua boca, o vitimado.

A cobra mais a onça na amplidão
são feras de terrível maldição:
é a morte disfarçada de quimera!

O morto no jazigo – o desenlace –
a vida que se foi – a triste face –
relembram o porvir de nova era!

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