OS CAMINHOS DA VIDA

Júlia e Francisco nem pensavam em nascer quando o zigoto-mor, logo após a fecundação, começa a se bipartir em grande velocidade no piso acolchoado da trompa de Falópio. Com muita rapidez e desenvoltura as células se replicam e descem na direção do útero. Parece um parque aquático com toboágua e piscina de águas cristalinas. O endométrio se transmuta em ninho, sem pressa e sem afobação. Já fixado e agasalhado em condições satisfatórias, o embrião mal sabe que os bisbilhoteiros de plantão estão de olho nas suas entranhas e intimidades. Neurônios precipitados de mentes curiosas começam a colher os frutos da especulação humana de forma invasiva e traumática. Onde estariam os batimentos cardíacos daquele diminuto ser, no início da sexta semana de vida? Onde estaria o pulsar triunfante da vida?
– Terão que esperar mais sete dias!
Diz o médico, de forma firme e profissional, focado na imagem inerte do concepto.
A modesta ansiedade do casal teria sido irrelevante, não fosse a curiosidade alheia. Todavia, outros atores entram em cena e o teatro da vida fica mais tenso e emocionante. Os sete dias de espera se transformam em cento e sessenta e oito horas até o momento do segundo exame. Horas frias e duradouras dão o mote para uma semana interminável. Jamais se pensou que tantos corações batessem tão fortes e rápidos a procura de um. O grito preso na garganta chega a modificar o sentido da vida. Uma taquicardia coletiva se faz presente. Momentos de suspense são postos no filme da espera. Mas para alívio geral, a primeira manifestação cardíaca, em som e imagem, aparece na tela do computador.

Agora, criemos um novo cenário para a nossa história. Imaginem vocês, se no dia da fecundação, o espermatozoide vencedor não tivesse conseguido romper a cápsula do óvulo e formado o tão expressivo ovo. Ou se este não tivesse conseguido se transformar em mórula com suas células-tronco até chegar ao estágio de gástrula. Ou se um compromisso inesperado tivesse atrapalhado o encontro do casal. Com certo grau de certeza, confirmaríamos que as impossibilidades de um nascimento são bem maiores que as probabilidades. Como também, afirmaríamos que problemas advindos à revelia traz menos danos que os conscientes, e que a desinformação do fato o torna menos danoso. Ao se dar o atraso menstrual todo o contexto é alterado. A gravidez, a curiosidade e a especulação provocam avalanches de ansiedade, demonstrando que a mente humana consegue ser extremamente ruim, de tão boa. Saber ou não saber, eis a questão!

Finalmente, o embrião dá um sinal positivo. Com ritmo regular, consegue regularizar todo o mundo em sua volta. Com menos de um centímetro, já dimensiona os devaneios da mente humana. O médico deixa de ser avô e se faz vítima do tempo. O avô deixa de ser médico e aprende com os leigos, enquanto Júlia e Francisco nem pensam em ser mundo. Finalizo, citando Petrúcio Maia e Climério Ferreira. “Ai! meu coração que não entende / o compasso do meu pensamento / o pensamento se protege / e o coração se entrega inteiro e sem razão. // Se o pensamento foge dela / o coração a busca aflito / e o corpo todo sai tremendo / massacrado e ferido do conflito.” Encerro o texto da “terça boa em prosa e verso” com um soneto.

O óvulo tão sublime é a luz divina,
o célebre gameta um bom sinal,
o encontro generoso um bem normal,
que a todos acalanta e à vida ensina.

O par que me comove e que alucina
é o ovo bem formado, um grão vital,
que cresce e faz do espaço o pré-natal
até descer ao mundo que fascina.

Se Júlia nos faz crer que o amor existe
e que a nova esperança assim persiste
é dela que se acolhe a boa razão.

Francisco, de outro ângulo, me alivia
trazendo o alvorecer de um novo dia,
que nasce com o pulsar do coração.

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