ESTRESSE E MEDICINA

Não se concebe um encontro festivo de médicos sem uma boa bebedeira. Em noite recente, cinco esculápios, juntamente com familiares, comemoraram o dia 18 de outubro, data alusiva aos seguidores de Hipócrates. Com as graças de Asclépio, deus grego da medicina, tiveram uma noitada memorável. Boas conversas e agradáveis lembranças marcaram a primeira etapa do jantar, até se pegar o meado das histórias que compõem o dia a dia dos profissionais que trabalham diuturnamente. Da festa de formatura aos encontros periódicos. Dos desafios às vitórias. Tudo foi revisto.

Num segundo momento, àquele em que as oxidrilas circulantes já começam a mexer com os neurônios, falou-se das dificuldades e do relacionamento com os pacientes, de como é a reação de cada um na seara das atenções médicas, dos conflitos frequentes e das soluções individuais. Neste ponto, foi realizada uma reflexão sobre a Síndrome do Esgotamento Profissional ou Síndrome de Burnout. Distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema e estresse devido à sobrecarga profissional, que pode levar o profissional a agir com ironias e sarcasmos ou a ter uma profunda Depressão.

Naquele instante, os ouvidos não conseguem mais ouvir de forma normal. As vozes se tornam mais elevadas. O ambiente mais ruidoso. A conversação mais acadêmica. O assunto da vez mira as doenças cardiovasculares. Isquemias, enfartes, aneurismas. Como o stent é colocado dentro da artéria. Como aquele pequeno tubo consegue deixá-la aberta, restaurando o fluxo sanguíneo por obstrução e mantendo a oxigenação dos tecidos. As mulheres conversam entre si, pois os diálogos se voltaram para assuntos médicos e profissionais. Esmiuçam-se os resquícios de sobriedade.

Um componente da mesa, o que se formara primeiro, o mais experiente, o que detém maior idade, relembra a crise de isquemia coronariana sofrida pelo colega, ao lado.
– Amigo Sávio, aquela obstrução parcial da artéria descendente anterior esquerda, ramo da coronária, que você teve, quanto é total é extremamente letal. Sei que você colocou uma ponte mamária, fazendo um atalho sobre o ateroma, numa cirurgia de peito aberto e foi salvo. Sabia que um ataque cardíaco desse porte é chamado de widowmaker – fazedor de viúvas –? O estresse mata. Precisamos desabafar. Você teve muita sorte!
– É verdade! Eu engulo muita coisa, sozinho. Sofro calado.
Responde, sem titubear, o exitoso operado.
– Sabia também que Dr. Aluízio, morto por um aneurisma dissecante da aorta, mais Dr. Nicolau, Dr. Soares e Dr. Osmar, que tiveram isquemia cardíaca, salvos por stent, todos trabalharam comigo? E que eram bestas como você, aguentando todas as agruras da profissão, de bico fechado? Vou dizer agora o porquê de vocês serem todos estressados e doentes do coração…

Nesse instante, um poeta o interrompe ao recitar a sexta estrofe do Poema de Sete Faces, de Carlos Drumond de Andrade.
– Mundo mundo vasto mundo / Se eu me chamasse Raimundo / Seria uma rima, não seria uma solução / Mundo mundo vasto mundo / Mais vasto é meu coração.
– Nenhum de vocês teve ou tem coragem de dizer em alto e bom som na cara de um paciente: vá à puta que o pariu! Encerro a terça boa em prosa e verso com um soneto.

Asclépio sendo o deus da medicina
e Hipócrates, o médico e pai famoso,
serei algum herdeiro prestimoso
capaz de efetivar a minha sina.

De tanto me inteirar da arte fina
vou ser um esculápio habilidoso,
mas sei como é difícil ser famoso;
daí, usar a luz que me ilumina.

Sabendo da esperteza do cliente
a mente se demonstra consciente
e, sóbria, não demonstra reação.

Porém, já dependente do estresse,
demonstra-se feliz sem ter benesse
e cai nas esparrelas da ilusão.

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