OS EMPOSSADOS

A terça boa de hoje fala da sexta ótima de 03 de dezembro de 2021, onde tomei posse na Academia dos Cordelistas do Crato. A professora Fabiana Vieira, que lançou o cordel A Morte de Zé Piolho, assumiu a cadeira que tem como patrono o poeta Patativa do Assaré, com grande desempenho. Durante a cerimônia, uma agradável surpresa nos encheu de alegria. As acadêmicas Chica Emídio e Fátima Correia, de forma teatral e figurino perfeito, declamaram O Arranca-Rabo de Yoko Ono com Maria Bonita (cordel de Sávio Pinheiro), levando o público ao delírio. Cito alguns trechos da minha fala.

Sinto-me honrado em tomar posse na Academia dos Cordelistas do Crato, defendendo a cadeira Nº 02, patronímica do poeta Pinto do Monteiro, antes ocupada pelo grande repentista e cordelista Luciano Carneiro de Lima, falecido em 23 de julho de 2020. Cidadão cratense e mestre da cultura do Ceará, ele prestou grandes serviços à região ensinando aos alunos a arte do cordel, recitando em encontros e montando folhetos.

Não tive a oportunidade de conhecê-lo, mas percebi a sua história. Não o acompanhei no dia a dia, mas procurei entendê-lo a partir das origens. Se o cratense de cidadania veio da serra do Teixeira, na Paraíba, trouxe consigo a mais autêntica identidade da poética nordestina. Ali, foi onde nasceu a cantoria de repente. Os primeiros cantadores que se fizeram presentes foram Agostinho Nunes da Costa e seus filhos Antônio Ugolino Nunes e Ugolino do Sabugi, além de Nicandro Nunes, Germano da Lagoa e Romano da Mãe d’Água. Se descermos a serra para o lado de Pernambuco chegaremos a São José do Egito, no vale do Pajeú, berço de João Ferreira de Lima, criador de João Grilo; de Rogaciano Leite; e dos irmãos Dimas, Lourival e Otacílio Batista; e se descermos para o lado paraibano chegaremos a Patos, berço de Silvino Pirauá Lima – poeta que introduziu a sextilha e a deixa no cordel e na cantoria – e de Manoel Pereira Sobrinho, patrono do homenageado na ABLC. Ele veio da terra do famoso Zé Limeira, imbatível nas pelejas, conhecido como o poeta do absurdo, segundo o jornalista, também paraibano, Orlando Tejo. Portanto, caros colegas, foi pela genética da localidade e da tradição que consegui entender um pouco mais o inesquecível poeta Luciano Carneiro.

Agradeço com alegria, à plêiade de cordelistas que me confiou o ingresso nesta academia, a qual prometo dignificar o título que ora recebo, contribuindo com os princípios e objetivos que a regem. Gostaria também de enaltecer o eficiente colegiado, com destaque especial à Anilda Figueiredo, escritora e pessoa boníssima, que formulou oficialmente o convite, para eu compor as fileiras desta arcádia, a qual já havia venerado por admiração e respeito.

Honra-me muito, neste ambiente de respeitável cultura, a presença do amigo Pedro Ernesto Filho, poeta, escritor e crítico literário, pelo empenho e dedicação que tem demonstrado à sobrevida do cordel e da cantoria. Foi a ele que confiei a primeira leitura do Romance do Cruzeiro-Isolado, meu último trabalho publicado. Um forte abraço nas caríssimas colegas de métrica e de rima Rosário Lustosa, Josenir Lacerda e Bastinha Job, em nome das quais saúdo toda a equipe.

Encerro a terça boa em prosa e verso com uma estrofe, no molde de um galope à beira mar, sobre o subgênero literário – variante do poema – que possui a liberdade dos pássaros, o vigor dos oceanos e a dimensão do pensamento.

Cordel é a marca que gruda no peito,
a voz que ecoa da fina garganta,
a força latente que surge e levanta
o brilho da alma, o fervor, o respeito.
É o choro engasgado do homem direito,
o entalo sofrido do corpo que chora.
É o livro que nasce do chão da aurora,
o adubo que cobre a pura semente,
é a rima que encanta o viés do repente
no escuro da noite, no claro da hora.

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