NEM TUDO SÃO FLORES

Um homem de meia idade incha rapidamente o lábio superior após ser picado por uma abelha italiana. Teve a sorte de não sentir o cansaço que tivera o seu pai, que quase morreu, devido a um edema de glote. Este tipo de alergia pode ser fatal quando não tratado a tempo. Após ser medicado, visitou uma conterrânea, que vivera em terras agrícolas num passado distante. Amava a apicultura e a natureza.

A ciência das abelhas é divinal. A arte de cultivá-las, individual e milenar. Os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já usufruíam do seu produto, há 5 mil anos a.C. Elas produzem mel, própolis, geleia real, pólen, cera e veneno; e possuem grande valor ecológico, por conta da engenhosa capacidade de polinização.

O sistema organizacional desses insetos voadores é magnífico. Uma indústria a serviço da vida. A hierarquia empresarial faz inveja a qualquer administrador competente. A rainha, com o seu poder na colmeia, cercada de zangões, determina as funções de cada um. As fiéis operárias voam, mirando o sol, em busca do néctar e do pólen no coração das flores. Cada época do ano, exceto nos apiários projetados, a matéria prima é codificada pela natureza. No nordeste brasileiro, as estações florais mudam conforme os meses do ano. No mês de março, é comum o marmeleiro e o velame; nos meses de maio e junho, a jetirana e a cabeça de velho; em agosto e setembro, a oiticica e a aroeira e em outubro e novembro, o cipó uva.

A produção industrial tem processo mais seletivo. Flores especiais são cultivadas para melhorar a qualidade do mel. Lavanda, Girassol, Alecrim e Margaridas são exemplos delas. Todavia, o mel artesanal, feito com flores de época, é manuseado de forma mais rudimentar. Enquanto no apiário, o homem se utiliza de métodos modernos na abertura dos favos para evitar contaminações; no modo tradicional, ele utiliza apenas a compressão manual. Aqui, fazemos uma analogia com o método rudimentar de amassar as uvas com os pés, na produção de vinhos.

Certa vez, dona Dalva – a verdadeira estrela –, pois a outra é Vênus: um simples satélite do nosso sistema solar, estava no exercício dos seus afazeres domésticos, quando foi surpreendida por um antigo conhecido, o do inchaço labial, trazendo um enigmático presente dentro de uma sacola de lona amarrada com barbantes. Antes de abri-la, ele confessou que sofrera muito no dia de adquirir a encomenda. Narrou que acordara cedo – bem antes do sol nascer – e que percorrera mais de seis quilômetros, no meio da mata, para realizar o intento. Na véspera, porém, confessa, que havia comido uma buchada de bode, requentada, tendo exagerado na ingesta; e que, antes de chegar ao destino, sentira fortes dores abdominais, mas, por sorte, conseguira se aliviar ali mesmo, entre moitas e folhas de mofumbo, ação que o fez se sentir bem melhor. Finalmente, o simples homem do campo quebra o suspense da cena retirando da bolsa um recipiente com mel de abelhas de altíssima qualidade. Entrega o presente à amiga e diz-lhe com convicção: “este é o melhor mel de abelha da região!” Dona Dalva, muito agradecida, lhe serve um café quentinho, com tapioca, antes do seu retorno.

Passados alguns minutos, a bondosa senhora, conhecedora da técnica de extração manual do mel de abelhas, com o coração partido, pensa em voz alta:
– Não vou ter coragem de consumir este mel, não…
Encerro a terça boa em prosa e verso com um soneto.

Na mesa, ele se impõe exuberante;
na boca, tem um gosto adocicado;
no pão, traz um odor qualificado;
na mente, um valor gratificante.

Na flor, o néctar habita o seu instante;
na língua da abelha é transportado;
na entranha da colmeia é transformado;
no mel, encerra a fase itinerante.

No solo, na estação, na natureza,
os campos impregnados de beleza
expõem as gramíneas e as flores.

Aos olhos, elas trazem bom alento
e o mais purificado sentimento
nas pétalas de espectros multicores.

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