COISAS DA MENTE HUMANA

Os filhos sofriam na infância quando iam ao carnaval de Várzea Alegre por serem de Cedro. Quando foram estudar em Fortaleza sofreram, igualmente, por serem do interior. A filha mais velha teve problemas em São Paulo por ser nordestina, e em Madrid, por ser latina. O pai, em Recife, quando ia ao teatro Santa Isabel assistir a uma peça sinfônica, era criticado por seus pares porque um nordestino raiz não podia gostar de música clássica. Claro, que o amadurecimento psicológico ajudou muito na cura desse descompasso mental, mas sabemos que o problema existe e ainda maltrata bastante os menos experientes.

O bullyng corresponde à prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, cometidos por um ou mais agressores contra uma determinada vítima. Em outros termos, significa todo tipo de tortura física ou verbal que atormenta um grande número de pessoas. Já o preconceito é uma opinião formulada sem a devida reflexão ou exame crítico, que quando adotado como prática se transforma em discriminação. Estas agressões levam a vários distúrbios psicológicos, tão prejudiciais à saúde. O que devemos fazer para minimizar as tão malgradas violências?

Alguns pais, através de pedagogia simplória, orientam os filhos a não caírem em armadilhas, antecipando-se aos fatos com medidas elementares de prevenção. Outros, investem numa educação mais rígida e arriscada, muitas vezes subtraindo o direito de ir e vir dos filhos, privando-os do contato direto com o cotidiano. Conheci uma mãe, que conseguiu criar o seu primeiro rebento longe de crianças traquinas e mal educadas. Não me perguntem como, mas ela conseguiu educá-lo sem dizer palavrões. Orgulhava-se nas rodas de conversas com outras mães, sobre a educação do primogênito. Um espécime raro no meio da perdição mundana. O garoto era estudioso, educado e falava corretamente o português. Estava preparado para o vestibular e exercer qualquer profissão sem os devaneios do seu tempo. A peraltice estava descartada na vida da amável criança. Os pais se orgulhavam de terem conseguido lhe dar uma boa criação. Só havia motivos para comemoração. Outras mães desejavam saber como ela havia conseguido realizar tal proeza. Era uma heroína. Um grupo interessado sugeriu, inclusive, a criação de um curso prático para mães, já que o esforço familiar teria tido êxito.

Certo dia, num baile infanto-juvenil, na cidade que sempre se orgulhou em promover o melhor carnaval da região e que, às vezes, fazia bullyng com crianças vindas de fora, acontece um fato inusitado. Enquanto a orquestra tocava o famoso frevo “Viva, Zé Pereira!” e a criançada pulava no salão, um dos foliões mirins resolve atrapalhar a alegria, exatamente, do garoto mais educado. Dá-se início a uma enorme gritaria e empurrões. Os palavrões começam a serem pronunciados, e, a partir daí, se tornam o grito de guerra de todo o bloco. A refinada criança, vendo-se encurralada por não ter bom desempenho na arte de dizer nomes feios, corre até a mãe e pergunta-lhe o que fazer naquele momento. Ela, com pena do filho em desespero, diz-lhe em voz alta:
– Hoje, está tudo liberado. Você não vai ficar por baixo. Sua mãe não vai reclamar. Seu pai também, não. É questão de honra. Pode falar qualquer asneira!
O pequeno Tibério, finalmente livre das amarras verbais que lhe eram impostas, com voz firme e forte, emite o seu primeiro e inspirado palavrão, extraído da parte mais perversa do seu cérebro recém-liberado.
– Seu Florestal!…
Encerro a terça boa em prosa e verso com um soneto.

Se eu me escondo na frágil estatura,
se a gagueira da voz me dá alento,
se a cor negra me faz deferimento
mostro ao mundo fortíssima estrutura.

Se percebo calado o xingamento,
se demonstro que não tenho postura,
se me calo diante da amargura
não mantenho, elevado, o pensamento.

Se contemplo calado e jamais veto
o desdém, a malícia, o desafeto…
Algum dia, serei penalizado!

Todavia, se espanto o preconceito
que persiste, ainda, no meu peito…
Num instante, estarei valorizado!

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