NANICAS, JAMAIS!

As condições climáticas do último mês de 2021 são cada vez mais indecifráveis. Uns dias nascem sem nuvens, com céu limpíssimo e sol forte, favorecendo os comentários midiáticos: hoje o dia está lindo! Outros, com nevoeiro denso, clima mais ameno e sol escondido, levam-nos a recordar a expressão da nossa terra: o dia hoje tá bonito pra chover! Nesse ponto, torno-me nostálgico ao relembrar as imagens e paisagens dos brejos férteis da minha infância. Volto-me a um passado distante, porém atual.

Um estreito riacho corta a plantação de bananas fincada num sítio da minha memória. As folhas verdes das bananeiras, os troncos recém-cortados com pequenos brotos que perpetuarão a espécie, os desajeitados mangarás, a leve brisa que vagueia pela sombra da plantação e os sons dos pequenos animais elevam o meu espírito e me transportam a um mundo sem conflitos. O almoço caseiro – sempre às 11 horas –, o jantar servido antes do sol posto e a boa conversa temperada com risos e histórias de assombrações fechavam o inesquecível dia. Um passeio de férias cheio de emoções.

Nasciam as bananas maçãs, mais doces e calóricas; as curtas; as sapos, estéreis e com menos açúcar, e as nanicas ou bananas da casca verde. A grande produção era das três últimas, grupos genéticos diferentes de todas as outras, inclusive da prata e da pacovan. Porém, a que dominava o mercado era a majoritária banana da casca verde. Elas eram produzidas para exportação com fins industriais, daí não terem grande importância para o consumo humano na sua forma natural, mas foi a que ficou guardada com muito zelo e para sempre no meu imaginário. O seu indescritível sabor comandava o espetáculo.

Numa abrangência mais regional, outras pessoas também gostavam da deliciosa fruta da casca verde, que era diferente das demais, pois não amarelavam após o processo de maturação. Sua casca permanecia sempre verdinha. Tinha outra estrutura genética. Ela carregava genes diferentes dos grupos mais comerciais. A sua primitividade era visível.

Uma atividade que também crescia muito, bem mais que as práticas agrícolas, era a indústria da maledicência e da fofoca. Falar mal de outrem sempre deu prazer a um certo grupo, mesmo que o inoportuno fruto do mérito pudesse causar consequências desagradáveis. Certa vez, uma jovem ficou encurralada numa dúvida atroz. Não sabia o que fazer diante de uma informação recém-colhida. Se contaria o fato a sua melhor amiga ou não. O conflito tomara conta de si. Ficou em êxtase.
– Conto, não conto! Conto, não conto! Vou contar! Ofélia, ontem à noite, eu vi o teu marido com uma outra mulher. Eles se abraçavam e se beijavam ardentemente.
– Se essa história for verdadeira, eu vou me vingar!
Retruca com ímpeto raivoso a inconformada Ofélia.
– Claro que é! Vi com estes dois olhos que a terra haverá de comer.
– Pois pode escrever. A minha vingança ficará marcada para sempre. Já sei o dia e a hora que irei executá-la. Não quero nem saber das consequências. É questão de honra.
– Ofélia, não vá prejudicar a sua vida. Esqueça o que eu disse. O crime não compensa.
– Não quero nem saber. Ele vai se arrepender de ter nascido. Nem que eu me prejudique. Será sábado pela manhã.
A amiga já arrependida de ter contado o ocorrido, suplica:
– Não faça isso! Você vai pôr em risco a vida dele e a sua também. Eu te imploro!
– Não tem volta. Estou decidida. Será sábado. Ele terá o que merece!
– E o que você vai fazer, sua louca!
– Sábado, às nove horas da manhã, no mercado de frutas…
Ofélia emite uma aterrorizante gargalhada, deixando a amiga mais enlouquecida, ainda. Sai da cena, em passos lentos, sob o manto maléfico dos seus pensamentos.
– O Croacir é louco por bananas da casca verde, mas ele vai ter uma surpresa, que jamais esquecerá. Vou fazer a feira, sozinha… E só vou comprar, Pacovan!
Encerro a terça boa em prosa e verso com um soneto.

Se eu revido uma grave acusação
dou bananas em ato obsceno
devolvendo, irado, o vil veneno
que alimenta o estupor da reação.

Se a banana provoca uma explosão
e destrói as pedreiras do terreno
é o ígneo disparo grande e pleno:
dinamite que altera o pétreo chão.

Se as bananas aguçam o paladar
dando à boca, impressão e bem-estar,
são benesses que vêm da natureza.

Se estão vivas nos cachos da estação
e expostas – brilhando sobre o chão –
nos permite enlevar rara beleza.

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