“Viver é mais do que ver e ouvir. É realizar o que se pensa e se elabora na sua mente”. Essa, mais uma das pérolas encontradas em “BOM-DIA, IRMÃO LEITOR”, obra do Padre Vieira (de Várzea Alegre). Uma reflexão, um convite a buscarmos o conhecimento das coisas, o conhecimento da realidade, além do mundo sensorial, além do mundo das aparências.

O conhecimento da realidade não acontece apenas a partir do ver e do ouvir, mas com a participação do pensar e do refletir. Apenas o ver e o ouvir não são suficientes para construirmos o conhecimento; urge pensar e refletir sobre o que vemos e ouvimos, a fim de superarmos as enganações, as ilusões que permeiam os discursos, as propagandas, as imagens e as conversas do nosso dia a dia.

É triste, mas é verdade: a maioria dos brasileiros estacionaram no ver e no ouvir. Não é prática entre nós o pensar e o refletir sobre o que somos levados a ouvir e ver todos os dias. O brasileiro é bombardeado, cotidianamente, por uma diversidade de sons, imagens, palavras, frases e discursos, unicamente voltados para moldar, condicionar a sua maneira de sentir, de agir, de perceber, de compreender. O objetivo é simplesmente manipular e inserir a população no universo da aceitação e da resignação. A maioria dos brasileiros ouvem música, consomem produtos alimentícios e de beleza, compram roupas, sapatos e muitos supérfluos, mas a partir do que é propagado e apresentado como sendo o melhor, pela grande mídia e afins, e não através da escolha acompanhada do pensar e do refletir críticos. Eis o que é muito conhecido por CONSUMO ALIENADO.

Se o brasileiro pensasse, criticamente, sobre a importância das coisas que consome diariamente, obviamente a vida seria melhor em quantidade e qualidade e superaria, sem dúvida, as “fake news”.

“Penso, logo existo” é o axioma mais conhecido de Renê Descarte, pensador francês (1596-1650). O pensamento é o que caracteriza ontologicamente o ser humano. O pensamento é o que nos diferencia dos animais, é o que nos faz questionadores da realidade.

Desagradável dizer e ninguém pode questionar: a maioria dos brasileiros não pensa, não utiliza o seu potencial, concentrando a sua existência, apenas no ver e no ouvir desprovidos, divorciados do pensar crítico. Nesse contexto, com muita sapiência, dizia o grande Raul Seixas:

(…)

“É você se olhar no espelho

Se sentir

Um grandessíssimo idiota

Saber que é humano

Ridículo, limitado

Que só usa dez por cento

De sua cabeça animal”.

(…)

A verdade é que a maioria dos brasileiros vivem direcionados, moldados e definidos pelo toque e por uma realidade exterior à sua consciência.

Mas a ausência desse pensar crítico não deve ser vista como destinação, como algo imutável, como atributo, apanágio, que o brasileiro não pode superar.

Devemos compreender a situação como forjada – e como tal suscetíveis de transformação – pelos instrumentos ideológicos produtores da alienação, presentes no Brasil há mais de 1500 anos.

Tudo o que escutamos e vemos na nossa vida, tudo tem uma explicação. Mas a explicação de tudo isso é como se estivesse camuflada, escamoteada, escondida num subterrâneo sendo, pois, necessário escavar, realizando algo como uma arqueologia das causas, o que é possível somente através do pensamento, da reflexão crítica, produzindo compreensão (crítica) e transformação.

A educação brasileira ainda não realizou o grande passo, qual seja o da ênfase na prática do pensar, do refletir. Transformar as salas de aula em espaço de leitura, reflexão, pensamento, questionamento e produção.

É necessário – e urgente – formar alunas e alunos que aprendam a questionar, argumentar, e a dizer não a tudo aquilo que não satisfaz ao viver bem, a uma vida digna e de qualidade. Mas a condição “sine qua non” para tal é habituar o discente à prática do pensamento crítico, a questionar as aparências. O ato de questionar e duvidar, para evitar os enganos e os condicionamentos por outra consciência.

É necessário e vital formar o hábito da leitura entre os nossos alunos. Nunca iremos formar leitores se tornamos essa prática distante do dia a dia discente. Mas não é somente a leitura do livro ou outro documento, é preciso que o aluno se habitue a discutir e a questionar tudo o que lê, e com isso aprender a julgar o mundo sensorial, incessantemente planejado pela habilidade ideologizante da grande mídia e dos fiéis representantes dos detentores dos meios de produção.

O brasileiro lê menos de três livros por ano (o livro completo). Segundo dados do Anuário Brasileiro de Educação Básica, no ensino fundamental, apenas 6,3% das escolas possuem biblioteca mais sala de leitura. No ensino médio temos 11,3%. Muito pouco… Muito pouco.

Complicado ainda é quando existem o espaço e os livros, mas o aluno não tem acesso.

A verdade é que devemos proporcionar o acesso dos nossos alunos aos livros, à leitura e discussão dos mesmos em sala de aula. Essa prática deve acontecer todos os dias, em todas as séries e em todos os componentes curriculares.

LER, PENSAR e FAZER para nos tornarmos livres e cidadãos.

 

Prof. Dagoberto Diniz

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais