TRANCOS, FESTAS E BARRANCOS

Sem talismãs, símbolos ou amuletos vou sendo levado pela vida. Com muito trabalho, bom humor e determinação sigo abraçado por uma força imprevisível – a antítese da má sorte – que me anima e me dá alento. A trancos ou barrancos – como falou um dia o espanhol Afonso Martinez de Toledo, em El Corbacho, século XV, – a vida continua me protegendo. Às vezes, fico surpreso com tamanha eficiência.

Em um 11 de janeiro, dentre vários, ao me parabenizar, minha mãe me contou o seu primeiro parto, que ora relato. “Pela manhã, foi visitar uma amiga que havia dado à luz, e teve a gentileza de dar banho no recém-nascido. À tarde, torrou um tacho de grãos de café, moeu-os em moinho manual e acomodou o pó em pequenas latas reutilizáveis. No crepúsculo vespertino, com as contrações uterinas em progressão, autorizou o meu pai a sair em busca da parteira. Antônia Cabeleira se embrenhou naquele ambiente doméstico fumando um cigarro confeccionado com fumo de rolo e palha de milho, e ordenou a gestante a se preparar para o exame. Sem luvas e com mãos descuidadas fez um toque vaginal: – está se aproximando a hora!
Vez por outra, lançava jatos de saliva no chão, porém sempre atenta às contrações uterinas. A bolsa se rompeu em um dos toques. Certamente, pelo conato direto das unhas com a bolsa das águas. O parto se tornou longo, estressante e doloroso. A criança nasceu com mãos e pés arroxeados, a cabeça um pouco assimétrica devido a bossa, algo comum em partos normais, e um pouco quieta. Mas foi por pouco tempo. O choro permitiu uma melhora da oxigenação cerebral e o rebento respirou em paz.” No primeiro barranco, fui batizado pela a avó materna para não morrer pagão.

Aos três anos de idade, brincando com meu irmão Vicente de apenas dois, manuseando cacos de porcelana, em iguais condições, presencio um engasgo que o leva a óbito por obstrução da árvore traqueobrônquica. Hoje, seria tratado com facilidade através da broncoscopia. Aos trancos, superei o segundo obstáculo da minha cavalgada. Três anos depois, por desobediência ao meu pai, que me avisara do perigo, caí em um poço cacimbão, seguro por travas horizontais de aroeira. Por sorte, não tive traumatismo craniano pelo possível impacto na madeira, e a quantidade de água existente no antigo reservatório serviu apenas para amortecer o impacto da queda, não sendo suficiente para favorecer o afogamento. Seis anos de vida, e eu solto aos trancos e barrancos.

Já adulto, em 1983, ano que me iniciei como médico, fui operado de apendicite aguda; e em 07 de junho de 1994, por ocasião da comemoração dos 500 anos do Tratado de Tordesilhas (acordo entre Portugal e Espanha na delimitação de terras na América do Sul) realizei outra intervenção cirúrgica devido uma estenose no colo vesical (acordo com o urologista sobre a passagem de urina da bexiga através da uretra que me causava grande desconforto). Ambas teriam me vitimado, se eu tivesse vivido na época do meu pai. Por sorte, a medicina evoluíra e eu fora salvo. Um duplo capotamento de carro num acidente de trânsito, em 2001, e uma cirurgia cardiovascular com ponte mamária, em 2010 – sem vítima – completaram as sete vidas que tive direito, até agora. Espero, neste 11 de janeiro, ao lado de familiares e amigos, continuar burlando as artimanhas do tempo. Encerro a terça boa em prosa e verso de aniversário com um galope à beira mar.

Bebi a poesia da praia do Janga,
comi o marisco, vivi minha sina,
morei no hospital, estudei medicina,
senti o sabor de mangaba e pitanga.
Do Alto da Sé, acabei minha zanga
dançando um bom frevo, querendo encantar.
Voltei às entranhas do alegre sonhar
na terra do mestre Humberto Teixeira
vivi em Iguatu a etapa primeira
cantando galope na beira do mar.

O rio Jaguaribe que sopra a cidade
é o leito mais seco do nosso sertão,
as águas não correm no seco verão,
porém traz o vento com muita vontade.
Mostrando sua força e a velocidade
traz vento certeiro pra nos refrescar.
Do túnel da mata, confins do além-mar,
meu sonho encantado esperava pra vir,
voltei à minha terra querendo servir
cantando galope na beira do mar.

Tentei Várzea Alegre, meu berço ascendente,
segui para Cedro mudando o destino,
criei a família: meninas, menino,
na estrada de ferro fui médico valente.
Na terra de Amâncio, poeta eloquente,
lutei fortemente querendo acertar.
No centro cirúrgico, em qualquer lugar,
ouvi os segredos com muito cuidado,
fiz parto, operei, emendei pé quebrado,
cantando galope na beira do mar.

A estampa do tempo criou outro plano,
mostrando, sereno, um novo estandarte,
no mastro da vida surgiu nova arte
revendo elementos de um amor soberano.
Com traço seguro e sem desengano
na várzea alegria pude cavalgar.
Ousei escrever, transgredir, relatar,
mostrar toda a fé de um santo estradeiro,
mostrei São Raimundo, nosso padroeiro,
cantando galope na beira do mar.

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