HIPOCONDRIA DUPLA

Não é mérito do esculápio estar sujeito às intempéries da profissão. Problemas existem no dia a dia e eles carecem de resolutividade. O médico, por conviver mais diretamente com pessoas frágeis, psicologicamente, devido às doenças pessoais ou familiares, tende a encontrar um maior número de pessoas ansiosas. Porém, tudo vira rotina.

Sabemos que a hipocondria é uma situação de difícil controle, não pela complexidade, mas por não a levarmos a sério. O portador deste problema acredita que qualquer sintoma é grave e que poderá lhe trazer complicações. Gastam parte do salário com consultas médicas, exames e medicamentos e nunca chegam a lugar algum. A Síndrome do Pânico é mais danosa, pois os pacientes têm crises agudas e chegam a ser atendidos nas emergências médicas na certeza de morte iminente. Uma simples dor no estômago após uma farta refeição pode os levar a emergências cardiológicas, acreditando tratar-se de enfarte agudo do miocárdio com chances de óbito.

Um destes casos merece destaque. A paciente, sabendo sofrer do distúrbio, conseguia fazer a sua própria análise. Sem entender o porquê, ela conseguia praticar uma terapia cognitivo-comportamental por intuição, mesmo sem ser psicóloga. De forma impressionante, ela conseguia se antecipar aos problemas e bloqueá-los, já sabia dos danos que poderia ter. Certo dia, ao sair do consultório, o médico sente grande alívio por poder se sentar na varanda de sua casa, no andar térreo. Distante das doenças e doentes, ele fica inerte. Fecha os olhos para ter a certeza que está livre do entediante dia de trabalho e se desliga do mundo. De repente, percebe um som de passos ao seu redor. Estarei imaginando coisas? Pensa. Eleva as pálpebras, devagarinho, e constata a presença de alguém.

– Estou incomodando, doutor?
Pergunta a mulher de meia idade, solteirona, cuidadora de sua mãe viúva.
– Claro, que não! O que você deseja?
– É que mamãe não está passando muito bem. E me falou que gostaria muito de fazer uma consulta com o senhor. É um desejo dela.
– Será um prazer! E por que ela não foi ao consultório, hoje à tarde?
– É que tive medo do senhor se incomodar! Pensei… Acho melhor ir na casa dele depois do expediente marcar a consulta. Amanhã, estaremos lá!
O médico eleva as pernas e fica quieto em sua cadeira após mais um gole de whisky. Ouve passos, novamente.
– Desculpa incomodar mais uma vez, doutor! É que… O senhor sabe, ela tem um irmão que é médico e não quer que ele saiba que o senhor vai atendê-la. Apenas para evitar constrangimento, tá?
– Tranquilo. Não falarei nada para ele! Nem saberá que vocês estiveram no consultório.
A mulher se afasta e o doutor ingere outro trago da bebida. Dessa vez com mais voracidade. Outra vez, percebe passos vindos em sua direção.
– Doutor, não se aborreça comigo. O senhor sabe, minha mãe é muito nervosa. Se, por acaso, a pressão dela estiver muito alta, não diga a ela, não! Senão ela piora ainda mais.
– Não se preocupe, ela nada saberá. Prescrevo o remédio e encerro, está bem?
– Combinado. O senhor é um anjo de pessoa. Boa noite!
Outra golada de whisky – dessa vez, sem gelo – outra fechada de olhos, pensamentos anuviados, corpo já meio dormente… Alguns minutos depois, passos.
– Doutor, sei que estou sendo inconsequente. Desculpe-me. Mas desejo lhe fazer um último pedido. Se o senhor constatar mesmo que a pressão da minha mãe está alta, não me diga também, não! Pois sou igual a ela.
Encerro a terça boa em prosa e verso com um soneto.

Se percebo, precoce, o que é sofrer
não dou trela futura ao vão lamento,
não permito o menor constrangimento
nem tampouco o pesar de entristecer.

Se bloqueio com força o sofrimento
dou rasteiras no rol do desprazer,
finco o pé na traseira do morrer,
trago à vida a loucura do momento.

Se nervosa, eu me deito no caixão
e no mundo, eu avanço a contramão
desconjuro os portões da alegria.

Todavia, se choro amargurada
ou se fico queixosa e exaltada,
sigo dando importância a hipocondria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais