SAPOS E SAPATOS

O poema é uma criação literária composta por uma ou várias estrofes. Estas, são estruturas organizadas a partir de versos ou pés, que são as linhas que dão origem ao texto poético. A expressão pé quebrado significa que a rima não foi bem elaborada conforme as regras estabelecidas. “Lá vem a lua saindo, redonda como um limão. Eu só queria saber se traíra tem pescoço”. Finco os pés nos sapatos e fico a imaginar o final da narrativa. O que os pés tem a ver com os sapos citados no título? Para entendermos este imbróglio vamos ler e ouvir, se possível, a Cantiga do Sapo, do genial artista paraibano Jackson do Pandeiro. “É assim que o sapo canta na lagoa, sua toada improvisada em dez pés. – Tião – Oi! – Foste? – Fui! – Compraste? – Comprei! – Pagaste? – Paguei! – Me diga quanto foi? – Foi quinhentos réis.”

A revolução industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, se expande pelo mundo e dá início a uma nova onda de pensamento. As ferramentas foram substituídas pelas máquinas, a energia humana substituída pela motriz, o artesanato pelo sistema fabril. Tudo isto deixa a sociedade atônita, tanto no campo, quanto na cidade. No final do século XIX, de forma mais consistente, todo o mundo é influenciado pelo surgimento de uma nova classe social, gerando um grande impacto na vida das pessoas, na arte e na literatura. O Brasil, ora inspirado no modelo francês, participa do processo mudancista, através de um grupo de vanguarda, que culmina com a Semana de Arte Moderna, no ano do primeiro centenário da Independência. Um pouco antes, em 1917, a pintora Anita Malfatti faz uma exposição em São Paulo, onde rompe com a pintura tradicional em prol de uma arte mais moderna e inovadora. O evento teve um destaque especial devido a uma crítica negativa do escritor Monteiro Lobato, que se mostrou contrário ao novo estilo. Nasce aí a semente do movimento de 1922. Na literatura, a ruptura com o Parnasianismo, que seguia o rigor formal com formas clássicas de rima, métrica e vocabulário robusto dá a tônica ao movimento. Um novo tempo está por vir, mas não emplaca nos primeiros anos. A valorização do nacionalismo, uma escrita menos acadêmica e uma arte mais acessível define a ideia inicial. Devemos entender, porém, que apesar de São Paulo ter realizado o evento, não significa esquecer que outros movimentos já aconteciam no Rio de Janeiro e em outros estados. No Ceará, em 1892, um grupo de rapazes já havia iniciado um movimento literário formado por escritores, músicos e pintores contrapondo-se ao modelo elitista da Academia Francesa. Antônio Sales, o seu idealizador, juntamente com um grupo de sonhadores mudancistas deram vida ao movimento com humor, talento e ousadia. O nome do grupo se chamou Padaria Espiritual e o jornal semanal que circulava com as novas ideias era denominado O Pão. O artigo 34 do programa de organizar um cancioneiro popular, genuinamente cearense, não foi cumprido. O grupo, que teve repercussão nacional, no seu estatuto antecipa algumas características do Modernismo. A partir de 1901, alguns escritores brasileiros se arriscam em modificar a linguagem e a alma de seus personagens dando início a uma literatura mais brasileira. Euclides da Cunha, Graça Aranha e Lima Barreto dão a sua contribuição iniciando o processo que deságua no movimento de 1922.

O que se chamou Semana de Arte Moderna foram três eventos no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, que nem empolgou tanto assim as pessoas, de maneira geral. No primeiro dia, a palestra A Emoção Estética da Arte Moderna – de Graça Aranha – e A Pintura e a Escultura Moderna no Brasil – de Ronald de Carvalho – seguida de três danças africanas de Vila Lobos deram a tônica ao evento. Tarsila do Amaral, autora do famoso quadro Abaporu, acompanhou o evento da França, onde se encontrava. No segundo dia, 15 de fevereiro 1922, há exatos 100 anos, literalmente, aconteceu a palestra de Menotti del Picchia sobre Arte Estética. O literata apresenta os novos escritores dos novos tempos e surgem vaias e barulhos diversos. Outro momento conturbado foi a declamação do poema Os Sapos, feita por Ronald de Carvalho, do médico e escritor pernambucano Manuel Bandeira que estava doente. Neste poema ele critica abertamente o Parnasianismo e seus adeptos. O público faz coro atrapalhando a leitura do texto. A noite acaba em algazarra. Eis, parte do poema: “Enfunando os papos, saem da penumbra, aos pulos os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, berra o sapo-boi: – Meu pai foi à guerra! – Não foi! – Foi! – Não foi! … Chame a saparia em críticas céticas: Não há mais poesia, mas há artes poéticas.” O terceiro e último dia, foi o mais tranquilo da semana. O público, em número reduzido, estava mais calmo. A apresentação de Villa-Lobos com vários músicos não teria provocado burburinho se ele não tivesse comparecido com um pé calçado com sapato e o outro, de chinelo. O público interpretou a atitude como desrespeitosa e vaia o artista com ênfase. Era apenas um calo inflamado. Coisas de interpretações precipitadas.

Conversando com o imortal João de Lemos, presidente da Academia Cedrense de Letras, sobre pés, estrofes, poemas e Semana de Arte Moderna, ele comenta: – gostei do texto, principalmente ao recordar Jackson do Pandeiro e Manuel Bandeira, dois gênios nordestinos. Mas fiquei intrigado com uma coisa. O que tem a ver Os Sapos do poeta pernambucano, autor de Pneumotórax, com o Sapato de Villa-Lobos, no meio dessa importante homenagem aos modernistas de 1922?
– Meu ilustre mestre, sabendo que com os pés é que se anda, lembrei de um ditado popular que diz: enquanto o salto do sapato é para trás, o do sapo é para frente.
Encerro a terça boa em prosa e versos com um soneto.

A UM ACTUAL PARNASIANO

O autor, mesmo atento ao romantismo,
no realismo haverá de se expressar;
pois, concreto e científico, irá mostrar
a linguagem simplista, sem elitismo.

Sem perder a sintaxe e o lirismo,
no poema, a poesia há de encontrar;
e o poeta, em Parnaso, aspira o ar
que a Grécia soprou com altruísmo.

Entre as quadras solenes dos sonetos
simplifica bastante os seus tercetos
ao sabor da imortal literatura.

Feito os deuses, rastreia um elemento,
que expresse o singelo encantamento
de mostrar novo estilo sem frescura.

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