“Aquele que não está se ocupando em nascer, está se ocupando em morrer”, diz o grande Bob Dylan, sempre crítico, sempre questionador diante das idiotices e aberrações dos humanos. Estamos rodeados de cérebros e suas tenebrosas cerebrações, sempre celebrando ideias e práticas sombrias. Quando homens e mulheres não evoluem, não inovam, no sentido do pensar crítico voltado para a melhoria de vida, solidariedade e respeito aos semelhantes, não há dúvida de que estão morrendo.

Devemos nascer todos os dias, e provocar em nós a morte de tudo aquilo que em nada contribui para a nossa felicidade e dos nossos semelhantes. Em todos os lugares os que estão morrendo estão se confrontando com os que nascem, com os que se renovam e inovam todos os dias. Ocupa-se em morrer quem parou, os espectadores, os resignados diante das exigências e demandas colocadas pelas circunstâncias. O vir a ser, as mudanças do dia a dia exigem o mesmo com as nossas vidas. Ser indiferente a esta realidade é o mesmo que estar no mundo sendo carregado, levado, sem resistência, sem energia, igualmente aos animais, ao reino mineral, que apenas existem no mundo, mas sem reação, apenas sofrendo os impactos da natureza.

As pessoas, geralmente, têm muito medo da morte. O medo deveria ser mais acentuado, sim, mas da resignação, do comodismo, da passividade diante das adversidades e intempéries.

Devemos nascer a cada dia, aprendendo com o passado, com os nossos mestres, com a experiência, com a ciência. Quem não aprende, quem não reage, quem não se revolta, quem não questiona, nem se rebela contra a sua transformação em massa de manobra, está sempre morrendo.

A maioria dos brasileiros permanecem indiferentes, bem-comportados, obedientes e resignados diante do lamentável quadro social. Elegem seus representantes, mas não encontram proteção e defesa dos seus direitos. Ao invés de reação contra o “status quo” e a indiferença dos seus representantes, apenas lamentos e ressentimentos. É por isso que a realidade é sempre a mesma, é transformada de quando em quando, entretanto, apenas com reformas que aparecem dando novas cores à exploração, dominação e manipulação.

Ser estranho à realidade, à cidade, à exploração, isso faz um mal imensurável à vida do resignado e, consequentemente, ao nosso quadro social. Antônio Gramsci, pensador italiano tratou desta questão afirmando que “Não podem existir apenas homens, estranhos à cidade. Quem vive de verdade não pode não ser cidadão e não tomar partido. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes”.

E o mundo assiste aterrorizado ao conflito entre Rússia e Ucrânia. A maior potência nuclear do planeta invade um país soberano a fim de tomar o poder e anexá-lo, como já havia feito com a Crimeia em 2014. A maioria dos países do mundo condenam a invasão e fazem protestos nesse sentido. Temos o bloqueio geoeconômico, que é aprovado pela grande maioria das nações, mas eis que surge a neutralidade, os indiferentes, alguns em cima do muro demonstrando parasitismo, abulia e covardia. E o Brasil está nesta relação.

Diante de uma relação entre o justo e o injusto, entre o bem e o mal; ficar neutro e indiferente é o mesmo que se colocar ao lado do injusto e do mal … Neutralidade é covardia.

Assistir à proliferação da maldade e da injustiça e não se posicionar, reprovando, questionando, denunciando ou contribuindo de alguma forma no sentido de combatê-las, reputo como postura covarde, pusilânime.

E o Brasil não se posiciona, permanece neutro, como se essa fosse uma posição digna e humanitária. Mas, esperar o quê de um Estado indiferente ao seu povo, que não se sensibiliza diante do sofrimento da sua população, do desemprego, analfabetismo, fome, mais de 600 mil mortos pela covid-19 e outras diversas situações de atraso social?

É preciso acordar, renascer. As pessoas, geralmente, têm esperanças. Se se tem esperança é sinal de que ela (a esperança) existe em relação a alguma coisa que não está bem, não é satisfatória. Se ficarmos somente no plano das esperanças – sem reação – esperando que a realidade um dia melhore estaremos apenas contribuindo para que a realidade permaneça.

Guiar-se pelo “raciocínio”, pela cerebração dos indiferentes é o mesmo que ocupar-se em morrer.

A morte da indignação, da obstinação, da resistência, da rebeldia, da desobediência e do questionamento inteligentes, diante das injustiças, nos coloca no mesmo nível do reino mineral. Risível, mas muito relacionado.

A nossa mais legítima e profícua forma de compreender e atuar sobre o mundo e o próprio homem, no sentido de transformá-los, é a educação, a educação que produz cidadania, aquela que nos proporciona as armas do conhecimento, as armas da conscientização, da politização, aquela que faz mulheres e homens renascerem todos os dias, tornando-os, enfim, humanos, verdadeiramente humanos.

Prof. Dagoberto Diniz

 

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