MARCAS DO TEMPO

Missões espaciais, animais, plantas, caligrafia, matemática. Do lado de fora, o edifício circular representa a humanidade, o centro oco traz a ideia do futuro desconhecido e a base verde lembra a terra. O museu, inaugurado em 22 de fevereiro de 2022, antecipa o mundo de 2071. Construído por robôs, além de sustentável com energia solar, ainda conta com peças de aço inoxidável. Dubai mostra a poesia de Mohammed Al Maktoum e encanta o mundo. Tecnologia e beleza dão vida a um dueto das arábias.

O avanço não é privilégio apenas dos Emirados Árabes. O mundo continua em expansão. Hoje, para se adquirir uma vestimenta, mesmo à distância, existe o provador virtual, ferramenta que usa a inteligência artificial para recomendar o tamanho ideal de peças de vestuário para o consumidor. A principal vantagem é tornar a experiência de compra mais próxima da realidade de uma loja física. Ela faz o cruzamento das informações fornecidas pelo consumidor como peso, altura e medidas corporais com os dados de modelagem das peças para identificar os tamanhos mais adequados.

A literatura de ficção também mostra boas artimanhas. No Romance do Cruzeiro-Isolado, o poeta Zé Lotero e o seu fiel amigo Parangolé, montados em dois animais alados, cruzam o espaço-tempo de forma majestosa. Na garupa da burrinha Gasolina, ao lado do Jumento Nosso Irmão, coloco a padaria e sigo para o ano de 1971, no século XX. Um ano antes, Belchior havia mostrado a música Mucuripe ao cantor e compositor Raimundo Fagner, que lhe dá nova roupagem. Com nova melodia, o belo poema ganha o festival do ano seguinte, na cidade de Fortaleza, no Ceará.

Na varanda de uma casa, ao pé da igreja matriz, cem anos antes do mundo previsto pelo Museu do Futuro, ouço um diálogo bastante interessante envolvendo três gerações: uma avó, uma mãe e uma neta. A mais velha, cabisbaixa, faz crochê o tempo todo. A conversa é iniciada pela neta, enquanto a música Mucuripe toca em todos os rádios da cidade: “As velas do Mucuripe vão sair para pescar, vou levar as minhas mágoas pras águas fundas do mar. Hoje, à noite, namorar, sem ter medo da saudade e sem vontade de casar. / Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado lá no campo inda era flor… “
– Maria Dalva, o mundo de hoje está muito mudado. Você vai a uma loja e já compra a roupa feita. Do modelo e do tecido que você achar melhor. Basta ter dinheiro no bolso e coragem para gastar. Não há mais com o que se preocupar no quesito vestimenta.
A dona da casa ao ouvir o comentário faz um gesto que quer falar sobre o tema, que lhe fez voltar à adolescência. As demais aguçam os ouvidos.
– Diferente do meu tempo. Quando queríamos um vestido, tínhamos que comprar o tecido, arranjar um bonito modelo e ir a uma costureira ou confeccioná-lo por conta própria. Estimulava a criatividade, mas nos dava muito trabalho.
Dona Francisca, apesar de concentrada na confecção do crochê, ouve os detalhes da conversa com curiosidade e paciência.
– Vocês não sabem o que é sofrimento. No nosso tempo de juventude, esperávamos a safra do algodão, produzíamos os fios, fazíamos os tecidos e cosíamos as nossas próprias vestimentas. “Que até o mês passado lá no campo inda era flor.”

O presente é o passado no futuro,
a fumaça que um dia já foi lenha,
o dinheiro advindo de uma senha,
a ruína, uma guerra, o homem puro.

Sendo o claro o reverso do escuro
e a noite o começo da ordenha,
hoje somos a fêmea que foi prenha
e amanhã o filhote que dá duro.

Se algum tempo se torna centenário
no compasso do nosso itinerário:
no futuro, esta data foi presente.

Mas se o tempo morrer de inanição,
o futuro entrará em extinção
e no fundo da cova, a tosca gente.

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