ANUVIADO, MAS FELIZ!

O azul celeste de um céu de brigadeiro com sol forte é uma paisagem perfeita para olhos não acostumados a esta cosmovisão, porém um céu carregado de nuvens verticais, prestes a desaguar, expõe poesia e esperança aos sedentos de chuva. O semiárido que que se expresse com sua terra ressecada de desejos. As diminutas partículas de gelo ou gotículas de água condensadas aspiradas dos lagos, mares, rios e até do suor corporal formam a deslumbrante moldura que nos envolve. As admiráveis nuvens que flutuam no firmamento trazem, além de enorme bem estar, muita paz, beleza e alegria.

Quando ocorre a precipitação deste envólucro acontece o inebriante fenômeno da chuva. O sereno externado nas canções, a neblina versada nos poemas, os torós cantados nas músicas e as grandes tempestades com relâmpagos e trovões mostrados nos filmes de terror encantam os poetas, porém podem amedrontar pessoas menos informadas por acreditarem que sereno, neblina e pingos de chuva transmitem mazelas.

A água irriga o solo, ameniza o clima e favorece a agricultura; mantém a floresta estável e equilibra os mares; hidrata o corpo humano e permite a vida no planeta. Todavia, algumas vezes, mostra sua ira ao desencadear inundações e catástrofes. O homem, que invade suas trilhas, fica surpreso e indignado quando a vê passando arrogante sem pedir passagem. A eterna briga do homem com a natureza provoca reveses. Narro aqui um fato ocorrido na penúltima década do século passado, que merece destaque.

A falta de um gerador num pequeno hospital numa cidade sem abastecimento de água causava embaraços aos profissionais, pacientes e familiares. Ainda sem a presença do SUS as dificuldades eram grandes. Certa noite, sob um céu escuro, uma parturiente dá entrada para dar à luz. O trabalho de parto transcorria calmo até o instante em que a criança apresentou sinais de sofrimento fetal. Algo estranho estava acontecendo no interior do útero, daí a necessidade urgente de uma cesariana. Sem anestesista, um dos médicos teve que praticar o ato anestésico e iniciar a cirurgia, fato comum, na época. As camadas da parede abdominal e do útero estavam sendo abertas por planos anatômicos, quando, de repente, uma enorme claridade é percebida pela equipe, seguida de um trovão ensurdecedor. A mão ágil do cirurgião penetra no útero já aberto e a criança é retirada com vida. Após a secção do cordão umbilical, a escuridão se apodera do ambiente. Faltara energia. Compressas são postas na parede uterina para minimizar o sangramento. Sem gerador, uma lanterna é solicitada para a conclusão do ato cirúrgico. Tudo teria dado certo se as pilhas não estivessem sem carga. Duas pequenas velas, não se sabe de quem, foram utilizadas para iluminar o campo operatório. Por sorte, o útero e o abdome são suturados antes do fim da anestesia. Chuva forte, relâmpagos e trovões se estenderam até as últimas horas da madrugada.

No dia seguinte, o pai da criança, um jovem rapaz de lábios inchados devido a uma infecção por herpes, falando com dificuldade, aborda os profissionais da medicina.
– Eu soube de tudo! Minha mulher teve muita sorte, não foi?
– Esqueça a tenebrosa noite. Vá comemorar o nascimento de seu filho e a forte chuva, a qual trouxe água para encher potes e cisternas e que muita fartura trará à nossa gente.
– Como posso comemorar, se eu trabalho vendendo o precioso líquido numa carroça. Hoje, eu não vendo uma lata d´água, doutor!
Encerro a terça boa em prosa e versos com um soneto.

Rios, lagos, cacimbas em despachos
sob o sol, marcharão como vapor
e no espaço terão igual valor
dando ao céu: boniteza, belos cachos.

Nuvens claras em forma de capachos
formarão o tapete do esplendor,
mas por ordem de Deus, o criador,
voltarão para os leitos dos riachos.

Nas florestas, nos mares, na amplidão,
no outono, no inverno ou no verão
a neblina abrilhanta a natureza.

Ao contrário dos morros, das cidades
que enfrentam as fortes tempestades
na escalada da dor e da tristeza.

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