ARBOVIROSES E OUTRAS VOZES

Estamos vivenciando tempos não estranhos no contexto das Arboviroses. Sei que muitos leitores não têm a obrigação de saber sobre este assunto, daí a minha intromissão. Elas são doenças causadas por vírus. As arboviroses mais comuns em ambientes urbanos são: Dengue, Zyca e Chikungunya. Os vírus causadores dessas mazelas são transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti. A Febre Chikungunya é uma infecção que pode apresentar febre acima de 38,5ºC, de início repentino, dores intensas nas articulações de pés e mãos e sofrimento intenso. Pode ocorrer também dor de cabeça, dores nos músculos e manchas vermelhas na pele. Cerca de 30% dos casos dessas doenças não chegam a desenvolver sintomas.

Não tinha a menor intenção de falar deste tema, hoje, não fosse pelo horário. São exatamente 21h06. A terça boa se encerra às 24h. Lembrei do imortal Ariano Suassuna proferindo palestra em Fortaleza em um domingo ensolarado. Ele disse: Só vim porque era eu! Digo o mesmo: só vou escrever porque eu fiz um compromisso comigo mesmo para produzir alguma coisa, mesmo sem tempo. Saio de dois dias de plantões nos hospitais da vida, onde constato que a crise aguda da Chikungunya só se compara aos ataques aéreos de uma guerra. Os pacientes chegam em cadeiras de rodas, em moletas ou nos braços de familiares, inclusive esposas enraivecidas com as bebidas dominicais dos maridos. Não consigo narrar para vocês o enorme sofrimento humano. O controle da transmissão das arboviroses se dá, essencialmente, no âmbito coletivo e exige um esforço de todos nós, em virtude da elevada capacidade de adaptação e transmissão do seu principal vetor. Nós é que facilitamos a sua vida.

Sabemos que para evitar o aparecimento dessas doenças, basta não deixar o mosquito voar. Ele não pode sair de casa para se divertir ou se alimentar, fica meses na fase larvária sem provocar danos. Em seus depósitos, residências ou berços, depende de como queremos nominá-lo, eles não provocam mal nenhum. Basta uma pequena chuva, uma razoável colocação de água em seus reservatórios para eles adquirirem sua liberdade, um sonho coletivo dos humanos. Mas como evitar tudo isso? Todos podem ajudar. As arboviroses não possuem ideologias, partidos, religiões. Elas desafiam as estruturas políticas e orgânicas. Os municípios, com o poder do Sistema Único de Saúde (SUS), podem se antecipar à catástrofe. Com pouco dinheiro, empregando parte da população com funções simples, elas podem desenvolver ações preventivas de grande valia. Nos meses que antecedem as chuvas, com céu claro e sol forte, os gestores poderiam desenvolver ações de grande importância. Supervisionando terrenos baldios, imóveis fechados – só lembrando, ao profissionais da saúde possuem poder de polícia para abrir estabelecimentos infestados – supervisionando depósitos em cemitérios, bares ou quaisquer lugares que juntem água, poderiam evitar este massacre. Fico triste, cabisbaixo, em saber que com tão pouco, poderíamos evitar tanto sofrimento. Poetizando, sem preocupação logística, sinto dores nas articulações cerebrais.

Finalmente, livre das agruras do ambiente hospitalar, visito um barzinho e encontro dois estimados amigos. Ao ingerir o primeiro gole, assisto a uma cena inesperada, dentro da minha sonolenta imaginação. Uma mulher de meia idade chega ao restaurante com marcha dolorosa, conduzida por familiares, demonstrando intenso sofrimento, porém sem febre.
É Chikungunya, pergunto.
– Não. Foi Chico Cunha!
Encerro a terça boa em prosa e versos com três setilhas.

As viroses transmitidas
precisam ser evitadas,
enquanto não acontece,
necessitam ser curadas.
População prevenida
manterão as suas vidas
muito mais valorizadas.

Chegando para o seu médico
fale do seu sofrimento,
peça-lhe a medicação
que lhe dê contentamento.
Diga que está sofrido
por não ter se prevenido
e com arrependimento.

Logo, meu bom cidadão,
a cura é muito importante;
drogaria, internação,
isso o governo garante.
Porém, só a prevenção
é a verdadeira razão
que faz o povo ir avante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais