LITERATURA E MEDICINA

O poema épico Os Lusíadas, publicado em 1572, é um clássico da literatura portuguesa. Luís de Camões apresenta as suas 1.102 estrofes de oito versos decassilábicos de forma clássica, porém demonstra um certo temor de não as poder concluir. Ele mostra isto bem claro nos dois últimos versos da segunda estrofe: Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte. Nos dez cantos do poema o herói guerreiro é protegido por determinados deuses e perseguidos por outros, mas se sobressai pela coragem.

No século V a.C., Hipócrates, considerado o pai da medicina, escreve: Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Hígia, por Panaceia e por todos os deuses e deusas que acato este juramento e que o procurarei cumprir com todas as minhas forças físicas e intelectuais, / Honrarei o professor que me ensinar esta arte como os meus próprios pais… Daí, a medicina ter sido sempre considerada algo bem maior do que ciência e arte. Algo místico sempre rondou os esculápios de plantão.

Participei, nos dias 13 e 14 de maio de 2022, do IV Encontro de Academias Literárias do Ceará. O evento, que já é uma tradição da ACEMES – Academia Cearense de Médicos Escritores, desta vez, com o apoio do ICC – Instituto Cultural do Cariri, que não mediu esforços e determinação, mostrou um grandioso espetáculo de Engenho e Arte. Estiveram presentes diversos representantes de Academias Literárias do Ceará mostrando que não há linha divisória entre a cultura popular e a erudita. A qualidade é que dita a norma. O cordel se mostrou leve tendo a liberdade dos pássaros, o vigor dos oceanos e a dimensão do pensamento; a prosa expôs toda a sua nudez através da crônica histórica, na roda das deusas, nos títulos inspirados no cotidiano médico, na exaltação da etimologia e na sinceridade da antropologia. Porém, o que mais chamou a minha atenção foi a poesia derramada pelo momento. Sentir o cheiro da serra do Araripe com céu e nuvens; ler a escrita dos prosadores com suas mais variadas visões de mundo; admirar a boa música e o lúdico; ouvir os versos de Patativa do Assaré… Tonton entonando a poética de forma simples e clássica conseguiu exalar um cheiro de dar água na boca. A poesia da sua fala sincera em nome da literatura promoveu uma embriagante mistura. Embalou os participantes com doces palavras.

A carga poética vinda da medicina, dos escombros do sofrimento, da necessidade intrínseca do ser humano, dos males do corpo e da mente movem escritores que insistem em dar depoimentos de vida e morte; a força da alegria, da musicalidade e do jogo cênico oriunda do cordel, das cirandas e do artesanato pousam, serenos, num ponto de confluência. Daí, a conclusão que a arte citada por Hipócrates e Camões no engenho da nossa imaginação está sempre convergindo para um lugar comum.

Encerro a terça boa em prosa e versos enaltecendo a Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC, a Academia dos Cordelistas do Crato – ACL, a Academia Cedrense de Letras – ACL e ao Instituto Cultural do Cariri – ICC, entidades que faço parte. Esta última tem por lema a expressão latina “ad astra per aspera” (até aos astros por ásperos caminhos).

Cordel é a marca que gruda no peito,
a voz que ecoa da fina garganta,
a força latente que surge e levanta
o brilho da alma, o fervor, o respeito.
É o choro engasgado do homem direito,
o entalo sofrido do corpo que chora.
É o livro que nasce do chão da aurora,
o adubo que cobre a pura semente,
é a rima que encanta o viés do repente
no escuro da noite, no claro da hora.

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