NEM TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA

Várzea alegre, desde 1963, exporta para todo o Brasil a exuberância de um carnaval raiz através da Escola de Samba Unidos do Roçado de Dentro – ESURD. Uma agremiação que insiste em desafiar o tempo através das lembranças dos antepassados e da força espiritual dos habitantes do lugar, a maioria, agricultores. Foram eles que romperam o elo rural/urbano; pobre/rico e os conflitos de ordem intelectual. Uma segunda escola, a Mocidade Independente do Sanharol – MIS, junta com outras, também atuam e fazem parte do carnaval da cidade. Cada uma quer levar o melhor de si para a avenida criando e inovando enredos, novidades e modernidades.

Certa vez, desisti do sertão e migrei para o litoral. Na rota do sol nascente, na afrodisíaca praia das Fontes, no sul do Ceará, vislumbrei eventos naturais, novos para mim. A maciez da praia de areias finas, a beleza das ondas azuladas e brandas, o escaldante sol queimando a pele e o frescor das águas nos banhos de bicas me transportava para longe das movimentações urbanos. A fase matinal se cumpria serena. Mais tarde, churrascos e cervejas iniciariam o processo mudancista da rotina para o enfrentamento das exóticas bandas carnavalescas que tocariam à noite. Eu achava que o carnaval interiorano havia se rendido à exuberância dos eventos litorâneos. Ledo engano.

Enquanto me preparava para mais uma noitada, um telefonema cheio de detalhes me deixa reflexivo.
– É você, meu filho?
– Sim, sou eu!
– Você não imagina o que aconteceu, aqui em Várzea Alegre, por ocasião dos desfiles das Escolas de Samba, ontem à tarde. Meu filho, metade da cidade ficou revoltada com o que aconteceu durante o desfile da Escola de Samba do Sanharol. Duas passistas, numa demonstração de modernidade, desfilaram totalmente nuas, ornamentadas apenas com tinturas no corpo, iguaizinhas às das passistas do Rio de Janeiro. Foi um comentário geral, principalmente quando a tinta se dissolveu, mostrando os detalhes íntimos das duas mulheres. Eu mesma fiquei horrorizada.

Meu pai, seu Chiquinho de Louso, carnavalesco autêntico e componente de carteirinha da Escola de Samba Unidos do Roçado de Dentro, a contragosto, teve de se ausentar da cidade por algumas horas para resolver um problema no seu sítio, em Granjeiro, só vindo a saber do caso um dia depois do fato ter acontecido. Ao chegar, imediatamente, ligou para mim.
– Você já soube da novidade do carnaval?
– A minha mãe me contou. Disse-me que metade da cidade está revoltada com a falta de vergonha das passistas desfilando nuas apenas com os corpos pintados.
– Pois ela não falou toda a verdade, não! Eu também fiquei revoltado, porque não vi. Que azar o meu, viajar exatamente ontem e perder um negócio desses!
Estático, fiquei a Imaginar:
– Palmas para a estatística e as ciências exatas. Metade do povo revoltada com o que viu e a outra, com o que não viu.
Encerro a terça boa em prosa e versos com um soneto.

O samba traduzido em arte fina
refaz, no mato, o dom da criação
criando em recatado coração
um sonho amalucado, que alucina.

Saudade, que transcende e que fascina
faz crer no dom divino da oração.
Daí, o bravo grupo em comunhão
marcar em passo nobre a grande sina.

Na lida da sofrida agricultura
ousou e fez jorrar outra cultura
regando-a na batida do pandeiro.

A Escola, que o roceiro edificou
e que ao som do batuque, eternizou,
faz jus a este momento verdadeiro.

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