JUMENTO BATIZADO

Durante anos, um jovem profissional trabalhou em dois serviços médicos distintos. Dois hospitais semelhantes pertencentes a grupos políticos adversos. O esculápio utilizava mais as suas habilidades diplomáticas que médicas para manter em paz os seus afazeres hipocráticos. O leva e traz de conversas picantes e certeiras seria bem maior, não fosse a intervenção fleumática do habilidoso profissional.

O seguidor de Asclépio possuía o poder divinal de separar as águas, quando turvas, no tortuoso rio da vida. Este fato me faz lembrar do advogado, escritor e poeta cearense Quintino Cunha no seu poema Encontro das Águas – Vê bem, Maria aqui se cruzam: este / é o Rio Negro, aquele, o Solimões. / Vê como este contra aquele investe, / como as saudades com as recordações. // Vê como se separam duas águas… //. Nem de longe, as partes envolvidas percebiam aquelas atuações quase cirúrgicas. O médico digeria as farpas trocadas, sem direito, sequer, de ruborizar a face. Durante anos, ele, com muita acurácia, praticou mais diplomacia que cirurgia.

No fim da tarde de uma sexta-feira, uma mãe, impaciente, entra no consultório com uma criança no colo. O médico, exausto, após maratona clínica de quase dez horas, dá início ao atendimento pediátrico. A consulta não muito lenta, isenta de sorrisos, termina num piscar de olhos. A mãe se retira sem despedida solene. Coloca a receita em uma pequena bolsa e sai com um jeito de que não valera a pena esperar tanto tempo naquele banco duro de cimento cinza. O profissional não estava bem. A rotina daquele dia corroera sua atenção, virtude máxima da relação médico-paciente. O bom humor já não fluía satisfatoriamente. O empatia se esvaíra em pequenas ondas.

Num espaço aberto de casa, após uma boa ducha, ele olha as estrelas e as contempla. O Cruzeiro do Sul dá a sua graça. A quinta estrela visível, a pequenininha, leva-o à infância sem energia elétrica no colo dos pais. A lua cheia o reanima e uma estrela cadente o faz esquecer o interminável dia. O sono chega. Ele dorme. O dia amanhece.

Um banho quente o revigora e faz voltar o seu autêntico sorriso. O café fresquinho de aroma forte demonstra que um novo dia está começando e que a vida volta ao eixo normal. O seu rosto se mostra mais jovem e menos áspero. O cansaço físico e mental desaparecera. Enfim, a textura da vida se evidencia sem problemas e inquietações.

O sábado se inicia. No outro hospital, ele recomeça a sua extenuante rotina. O cheiro agradável de seu perfume se mistura com o aroma da sala recém-arrumada dando um ar de leveza e tranquilidade. O hospital não parede mais tão assustador, assim. Uma mãe com criança no colo entra no consultório. O médico, sereno, iniciando a sua maratona clínica, dá início ao atendimento pediátrico. A consulta, não muito lenta, mas repleta de sorrisos, termina com a mãe bastante satisfeita. Coloca a receita em uma pequena bolsa e se retira com a fisionomia de que valera à pena esperar naquele banco duro de cimento cinza. De repente, ela para bruscamente e exclama:
– Esta, sim, é uma consulta bem feita. Diferente da que fiz ontem à tarde, no ouro hospital, com aquele jumento batizado!
Encerro a terça boa em prosa e versos com um soneto.

Vejo a porta entreaberta da emergência
na saleta agitada do hospital
onde o bem valoroso vence o mal
sob o manto vital da permanência.

O sofrer, a dor física, a vil demência,
dão o tom da penúria social
que habita e retira o essencial
da esteira sagrada da ciência.

De manhã, ao doente esperançoso
eu me mostro um doutor calmo e bondoso
ofertando com graça o meu juízo.

Mas à noite, estressado e sem alento
abro a porta e navego feito o vento
das entranhas do limbo ao paraíso.

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