MISTURADO COM PROSA, POESIA E MEDICINA (02.08.2022)

Semana passada, quebrei o protocolo da Terça Boa em Prosa e Versos ao anunciar o primeiro aniversário da coluna. Achei necessário falar, mesmo alterando o formato da página. Foi bom. O coração pedia-me que eu externasse as madrugadas dos plantões nos cinquenta e dois textos publicados. Assim o fiz. Fiquei satisfeito. Mas hoje, mesmo sabendo que a mudança da rotina pode diminuir o fascínio do leitor, repetirei a desobediência, escrevendo uma carta a um grupo muito especial de profissionais.

Caríssimos colegas,

Desde cedo, na tenra infância, decidi fazer medicina. Animava-me, a convicção que os descendentes de Asclépio eram independentes e livres no desenvolvimento de sua arte. Detinha a certeza que em se chegando com uma mesinha e um estetoscópio, em qualquer lugar do mundo, a minha ousadia estaria garantida. Com o tempo, descobri que a realidade era outra e que a minha fértil imaginação não passava de uma fantasia. Mas foi com ela, a arte Hipocrática, que me abracei e que, ainda hoje, dançamos juntos a grande valsa da vida, sob a regência de Strauss. Vejo-me, ainda, dando os primeiros passos no salão da semiologia, distante dos atuais paredões da tecnologia e do protocolo clínico. E assim, como Esculápio, me tornei médico.

Na primeira estrofe da minha biografia em estilo armorial, narro o período que vai desde o primeiro dia de aula na faculdade de Medicina, em Recife PE, até o primeiro dia de trabalho no Hospital anto Antônio dos Pobres, em Iguatu CE: bebi a poesia da praia do Janga, / comi o marisco, vivi minha sina, / morei no hospital, estudei medicina, / senti o sabor de mangaba e pitanga. / Do Alto da Sé, acabei minha zanga / dançando um bom frevo, querendo encantar. / Voltei às entranhas do alegre sonhar / na terra do mestre Humberto Teixeira / vivi em Iguatu a etapa primeira / cantando galope na beira do mar.

Também na infância, aos empurrões, tomei gosto pela leitura. Não os livros impostos pelas disciplinas escolares, mas as aventuras do fantástico mundo das histórias em quadrinhos. Ali, eu conseguia ser cineasta, escritor e inventor de um novo mundo. A partir daquela base literária consegui plantar na minha mente as raízes da criação e a movimentação das ideias. Todavia, foi bastante tempo depois, a decisão de deixar impressas as minha opiniões. A verdade é que houve o casamento das duas artes.

Mas o grande dia estaria por vir. Foi somente em 28 de julho de 2022, às 20h17, que o confrade Wellington Alves, presidente da Academia Cearense de Médicos Escritores – ACEMES, comunicou-me, por telefone, que eu havia sido eleito, por unanimidade dos votos, membro efetivo daquela Arcádia. Literalmente, formou-se a inebriante mistura de literatura e medicina que a minha vida já a abraçara.

Sem mais delongas e convicto que dignificarei todos os preceitos legais da augusta casa, despeço-me agradecendo a confiança de todos os colegas médicos escritores em declinar o meu nome para tão honroso posto. Muito obrigado!

Encerro a Terça Boa em Prosa e Versos com um soneto.

Nas longínquas manhãs da tenra infância,
numa vida de médico, imaginei-me,
nas noitadas tristonhas, coloquei-me,
nos plantões, vi-me com exuberância.

Nos quadrinhos, buscava a alternância,
nas leituras diárias, deleitei-me,
nas revistas de heróis, iluminei-me,
nos desenhos descritos, vi constância.

Na poesia e na prosa, anos à frente,
num estilo poético efervescente
encontrei, revirada, a minha sina.

Misturado com letras, tão somente,
adentrei nos porões da minha mente
procurando entender a medicina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais