No dia 16 de março, o mundo perdeu Jürgen Habermas (1929-2026), notável filósofo dos séculos XX e XXI. Em sua extensa obra, a comunicação ocupa posição central, considerada como a ação que mais influencia a qualidade das relações humanas e, consequentemente, a possibilidade de organização política entre os povos. Vale reforçar que a ação comunicativa tal como concebida por Habermas, não se reduz a um mero diálogo, mas sim a um processo racional livre de imposições e orientado ao entendimento e crescimento mútuos.
A história do homem não se resume a uma sequência de fatos e avanços tecnológicos. Deve também ser considerada como elemento do processo histórico a qualidade da comunicação estabelecida entre os diferentes povos. Da comunicação pode surgir relação de entendimento ou de dominação.
A forma de comunicação, desde priscas eras, define a qualidade de vida e crescimento humano. Onde brotou a manipulação discursiva vicejaram os regimes autoritários e onde floresceu a relação dialógica progrediu a liberdade de escolha proporcionando a participação popular nos rumos da história.
Como é notório, a caminhada do “homo sapiens” foi frequentemente movida por interesses; nesses momentos, quando houve o diálogo, este se limitou à imposição, onde um fala e outros apenas escutam passivamente.
Muitas guerras surgiram e continuarão a renascer pela ausência da comunicação autêntica. Os conflitos mortais entre os homens ainda hoje persistem pela incapacidade de diálogo. Não seria exagero dizer que sem o diálogo o homem pode destruir tanto o outro como a si mesmo.
O que se observa até hoje é a chamada ação orientada para o sucesso individual. A produção do conhecimento e da ciência, muitas vezes, têm sido desviadas para atender a interesses políticos e econômicos. A razão, nesse contexto, em vez de comunicativa, torna-se instrumental, movida pelo desejo de satisfações particulares. O resultado desse processo tem sido o bem-estar de uma minoria em detrimento da maioria.
Em “Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos” (1990, p. 73), Habermas argumenta: “Uma vez que o agir comunicativo depende do uso da linguagem dirigida ao entendimento, ele deve preencher condições mais rigorosas. Os atores participantes tentam definir cooperativamente os seus planos de ação, levando em conta uns aos outros, no horizonte de um mundo da vida compartilhado e na base de interpretações comuns da situação.”
Caso as nações, especialmente as potências do Norte Global, tomassem essa orientação como referência nas suas decisões políticas, sem dúvida estaríamos mais distantes das guerras e das crises estruturais do mundo atual.
A possibilidade da ação comunicativa tem encontrado dificuldades para a sua efetivação diante dos obstáculos criados pela imposição dos interesses das grandes potências.
Habermas, o filósofo da racionalidade comunicativa entendia que o diálogo só é legítimo quando referenciado no consenso, onde todos falam e escutam respeitando o ponto de vista do outro. E, nesse caso, o que deve ser levado em conta e aceito são os argumentos que favorecem a todos os participantes da conversa. Não é suficiente apenas realizar o diálogo, é preciso fazê-lo de forma responsável. Assim, a comunicação só é autêntica quando acompanhada da cooperação, da sinceridade e do reconhecimento mútuo. É incapaz de dialogar quem se distancia desta perspectiva.
Segundo Habermas existem duas formas de ação:
– O agir estratégico: a intenção não é o entendimento mútuo, mas o sucesso, o controle, a obtenção de vantagens, sendo o outro apenas um meio. É uma ação que faz da linguagem um instrumento de persuasão.
– O agir comunicativo: quando a conduta do sujeito é orientada para a busca do entendimento mútuo. Aqui os participantes do diálogo estão abertos à crítica e a revisão de suas ideias. As oportunidades de participação são iguais, sem coerção, e o melhor argumento é o que prevalece.
À luz dos fatos, é inevitável lamentar que, em pleno século XXI, o agir estratégico permaneça com mais vigor: amizades que nascem do interesse, transformação da educação em mercadoria, a política como um meio de obtenção de conquistas particulares e a comunicação como instrumento de persuasão e controle. Entre muitos grupos, instituições e nações a comunicação tem sido sinônimo de manipulação e de colonização da consciência.
O mundo contemporâneo foi transformado no palco do agir estratégico. As decisões, de forma recorrente, são tomadas à revelia do povo, e este, quando é convidado a participar é apenas para conhecer o que foi decidido.
Em uma reunião entre líderes mundiais, o agir comunicativo só se realiza plenamente quando todos tiverem voz e participação efetiva, o que é raro no mundo atual, quando as grandes potências frequentemente ignoram as desigualdades sociais existentes entre as diversas nações.
O resultado da ausência da comunicação que visa ao consenso tem sido um dos fatores responsáveis pela dependência econômica do Sul Global aos países do Norte Global e pela ocorrência dos inúmeros conflitos armados. Esses fatos demonstram o desrespeito às normas internacionais, o que indica a presença da racionalidade subordinada a interesses estratégicos e econômicos.
A Organização das Nações Unidas reúne anualmente a maioria dos países, mas sem tratar de medidas concretas que reduzam as imensas desigualdades entre as nações. As necessidades e a voz dos países pobres e em desenvolvimento são sempre abafadas pelos países ditos desenvolvidos, quando o assunto é a promoção da justiça social.
A ausência da ação comunicativa não acontece apenas entre países. No nosso dia a dia o mesmo ocorre também nas nossas instituições. Muitas destas abrigam gestores, cujo contato com os servidores limita-se ao discurso moralizante, a transmissão de informações, exposição de regras, interpelação ou admoestação.
Nas escolas, de quando em quando nos deparamos com a falta do diálogo que visa ao consenso. Algumas gestões mantêm o foco na conquista da disciplina, mas permanecem distantes da conscientização e politização dos seus alunos.
A despeito da existência de algumas mentes refratárias ao consenso, vejo a educação como o meio mais eficaz de formação cidadã. A escola, especialmente a pública tem a obrigação de preparar o aluno para enfrentar os desafios da vida. E essa preparação deve incluir o saber escutar, considerar o ponto de vista do outro e, sobretudo, ter como foco o respeito à dignidade humana. Para isso a educação deve vivenciar o debate como atitude pedagógica cotidiana. A escola não pode ser considerada democrática e cidadã quando muitos alunos se sentem excluídos.
Não é apenas pelo voto para escolher gestores, que a instituição escolar se faz verdadeiramente democrática. É imprescindível para esse mister que os discentes possam, sem sofrer punição, questionar a educação bancária, a prática do bullying, a discriminação e a exclusão que ainda permanecem em algumas instituições escolares.
Conscientes e de forma coletiva as pessoas podem se organizar para questionar situações indesejáveis, pressionar os representantes políticos e, assim, provocar transformações sociais. Os alunos críticos que a escola pretende formar não devem ser confundidos com os bem-comportados e resignados, mas como seres capazes de utilizar os conhecimentos adquiridos e construídos para atuar na história de forma reflexiva e inteligente.
Cidadãos críticos e conscientes não se sujeitam às estratégias de persuasão discursiva.
Paulo Freire já destacava: “Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmaremos.”
Dagoberto Diniz

