Author: Dagoberto Diniz

JUBILEU DE CRISTAL DA ACADEMIA VARZEALEGRENSE DE LETRAS

Há 15 anos nascia a Academia Varzealegrense de Letras (AVL). Em 7 de maio de 2011 ocorreu a instalação dessa casa das letras, bem como a posse de seus primeiros acadêmicos. Essa data é muito especial para a cultura local, pois anuncia uma nova era: o resgate da obra dos escritores que não estão mais conosco, a divulgação dos autores atuais e o incentivo àqueles que desejam cultivar a literatura na terra de Papai Raimundo. A augusta academia de letras de Várzea Alegre foi fundada por oito escritores: Pedro Sátiro, Marco Filho, Irismar Araripe, Dagoberto Diniz (primeiro presidente), Tibúrcio Bezerra, Liduina Sousa, Hélio Batista e Cosma Ferreira. Inicialmente o silogeu funcionava em uma sala especial no prédio da Secretaria Municipal de Educação, equipada com birô, cadeiras, estante e um computador, cedidos gentilmente pelo então prefeito Zé Hélder. Foi nesse espaço que os acadêmicos fundadores promoveram os debates e reflexões sobre a produção dos escritores locais. Além disso, foi o momento de planejamentos e programações destinados à divulgação e ao fortalecimento da cultura. A academia, além das atividades culturais, preocupou-se também com as questões burocráticas. Nesse sentido, providenciou, em cartório local, o registro dos seguintes documentos: a ata de fundação, a

OS LIMITES DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA BRASILEIRA

A democracia tem suas origens na Grécia Antiga, na cidade de Atenas, no século V a.C. Sólon e Clístenes contribuíram significativamente para reformas e para a organização da participação política. Mas foi com Péricles que a democracia ateniense se fortaleceu e conheceu o seu apogeu. Mais de 2.500 anos depois, o regime democrático continua vivo, contudo atacado e limitado em alguns lugares e mais fortalecido em outros. A ordem democrática é respeitada por alguns chefes de Estado, mas debilitada pela ação desagregadora de líderes autoritários. A palavra democracia vem do grego “demos” (povo) e “kratos” (poder), e quer dizer o governo do povo. Em Atenas a democracia era direta, ou seja, o povo participava das decisões políticas em praça pública, mas somente os homens gregos podiam participar da vida política. As mulheres, os estrangeiros e os escravos eram excluídos das decisões sobre os rumos da cidade. Era uma democracia, portanto limitada. O ex-presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln (1809-1865), ampliou esse conceito ao afirmar: governo do povo, pelo povo e para o povo. Ou seja, que além de o poder pertencer ao povo, o governante deve ser escolhido pelo voto e governar em benefício da sociedade. No Brasil, a democracia

A PESSOA HUMANA: DA APARÊNCIA AO MUNDO DO SER

Tem sido recorrente a forma de julgar alguém, tendo como medida a aparência. Reduzir a pessoa a essa dimensão é ignorar os valores que orientam a vida, as formas de compreender, sentir, imaginar; a sua interioridade, enfim. Somos muito mais do que um rosto, uma altura, um peso, a cor da pele e dos olhos, a qualidade dos cabelos e status social. Que alguém seja avaliado ou mensurado, desde que o seja a partir das suas atitudes, da sua trajetória, do seu projeto de vida, pela forma como encara os desafios.    Julgar pela aparência é prática arraigada na sociedade. Frequentemente, com o primeiro olhar, as pessoas já são definidas, de forma positiva ou negativa. É de lamentar que esse procedimento frágil e equivocado seja empregado para compreender o ser humano. É necessário entender que além da aparência, homens e mulheres têm o seu mundo interior, que é complexo, não sendo, pois, pelas características externas que iremos conhecê-los melhor, muito menos defini-los.  “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” já dizia Fernando Pessoa. Essa reflexão do poeta português define muito bem a verdadeira medida para avaliar e perceber a pessoa humana. Ou seja, que

“DESCOBRIMENTO DO BRASIL”, COLONIALISMO E COLONIALIDADE

Tornou-se comum a afirmação de que o Brasil foi descoberto pelo senhor Pedro Álvares Cabral em 22 de abril de 1500, ou seja, há 526 anos. Nesse caso, eu pergunto: como pode ter sido descoberto por portugueses, se o nosso território já era habitado por milhões de indígenas desde priscas eras? Os fatos comprovam que não houve descobrimento, mas a chegada do europeu, mais tarde transformada em invasão, resultando em problemas que, em pleno século XXI continuam afetando a sociedade brasileira. Estudos da arqueóloga Niéde Guidon, confirmam a presença de pessoas no Brasil há cerca de 40 mil anos. Temos ainda a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita logo após a chegada dos portugueses ao Brasil. Esse documento é considerado o primeiro registro escrito sobre o Brasil. Em uma de suas linhas ele destaca: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. Tais fatos comprovam que o evento de 22 de abril representou apenas a chegada dos portugueses, jamais a descoberta do Brasil. Falar em “descobrimento do Brasil” não se trata de um mero engano de linguagem, mas um indício explícito do eurocentrismo e do olhar etnocêntrico. Ou seja, a arquitetura ideológica utilizada para apresentar

AS ALMAS PEQUENAS EM PLENA ATIVIDADE

A sociedade é notoriamente diversa. As pessoas são diferentes não apenas no aspecto físico, como também nas formas de pensar, sentir, perceber e agir. Ou seja, cada um tem o seu jeito de ser diante do outro e dos fatos cotidianos. Isso é normal, contudo, encontra seus limites quando interfere na liberdade de alguém. Nesse caso, cito aquele comportamento extremamente prejudicial, não apenas aos seus autores, mas principalmente aos que estão ao seu redor. Refiro-me a homens e mulheres que, desdenhosamente, se acham superiores e “donos da verdade”. O notável escritor russo, Nicolai Gogol (1809-1852) é conhecido pelas suas obras de crítica social, onde destacou com singular habilidade a decadência moral da sociedade russa, expondo a hipocrisia e a corrupção da sua época. Das suas reflexões sapientes, esse notável autor concluía: “Se a alma de uma pessoa é pequena, ela encolhe tudo ao seu redor.” Esse diagnóstico social do genial Gogol foi feito no século XIX e ainda se encontra plenamente válido para o século XXI, sobretudo no Brasil. A “Alma pequena” na consideração do autor russo nada tem a ver com pessoas desprovidas de formação acadêmica. A afirmação desse renomado escritor refere-se àquelas pessoas eticamente pequenas e incapazes de

A LEITURA, A ESCRITA E A OBSERVAÇÃO DO MUNDO

Ler e escrever devem compor o trabalho central da escola. Os livros, o papel, o lápis ou a caneta só produzem resultados satisfatórios quando plenamente utilizados em sala de aula. O exercício da leitura sempre acompanhado de interpretação, diálogo e produção textual contínuos, é uma prática indispensável à educação que almeja a formação integral Machado de Assis foi um grande escritor, de estética singular e excepcional capacidade crítica. Para a sua formação intelectual foram essenciais a leitura dos clássicos, a observação do mundo, suas estruturas sociais e os diálogos que diariamente realizava com os homens letrados da época. Pela leitura dos livros e da realidade, conhecemos o mundo e o próprio ser humano em seus mais variados aspectos. Por meio dessa atividade, adquirimos a capacidade de argumentar e questionar. Além disso, tornamo-nos aptos a enfrentar os desafios que, frequentemente, surgem em nossa vida. Pela leitura dos livros e do mundo desenvolvemos a habilidade da escrita, atividade imprescindível para fazermos o registro das nossas reflexões e das nossas visões de mundo. Pela leitura podemos nos tornar grandes escritores. A leitura e a escrita, sem dúvida, oferecem todas essas possibilidades. Mas é necessário lembrar que essas práticas devem acontecer de forma crítica

A LINGUAGEM ENTRE O PODER EMANCIPADOR E O POTENCIAL ABUSIVO

As palavras e a linguagem são os recursos mais poderosos do ser humano. Elas podem, não apenas informar, mas sobretudo transformar. Por meio delas pessoas podem ser exaltadas ou vilipendiadas; e a realidade conservada ou transformada.   É claro que temos a liberdade de falar, de expor nossas opiniões em público, de questionar e mostrar nossa indignação em relação a comportamentos e situações indesejáveis. Entretanto, muitos questionamentos surgem, para manchar reputações, incitar a violência ou gerar discriminações. Quando trazem danos à pessoa, à coletividade e às instituições, é o momento em que devem ser analisados e principalmente evitados. Nesses casos surgem os limites da liberdade de expressão. De acordo com a Teoria do dano, princípio desenvolvido por Stuart Mill, a única justificativa legítima para limitar a liberdade de um indivíduo é impedir que ela cause dano a terceiros. A reflexão desse pensador inglês constitui uma contribuição essencial para uma apreciação da liberdade de expressão. Na sociedade atual, mais complexa e diversificada, torna-se necessário ampliar seu alcance, indo além do indivíduo e redirecionando o foco para o corpo social e para a ordem institucional. Nessa perspectiva, vale mencionar alguns danos que restringem a liberdade de expressão, tais como: incitação à violência; apologia

A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E A NATURALIZAÇÃO DA DOMINAÇÃO

O nascimento humano não é um fato simplesmente biológico. Representa também a inserção humana no universo das relações com o mundo e com o outro. Esses vínculos, nem sempre asseguram o sucesso e bem-estar coletivos. Homens e mulheres, sob a influência desse convívio, tornam-se vítimas da violência, não somente a que provoca a dor física, mas também, aquela que não deixa marcas no corpo, atuando na consciência, gerando no indivíduo oprimido a aceitação da sua condição de dominado como coisa natural. Esta é a violência simbólica, a agressão exercida por meio dos valores, das normas, da linguagem e da cultura. Para o sociólogo francês, Pierre Bourdieu a violência simbólica consiste numa dominação em que os dominados aceitam como naturais e legítimas as estruturas que os oprimem. Assim, o dominado compreende como normal a sua situação. Permanecerá nesta condição enquanto não adquirir compreensão crítica da mesma. As instâncias sociais que mais deveriam primar pela emancipação humana às vezes cometem desvios. Paradoxalmente, afastam-se de sua missão libertadora, tornando-se instrumentos de reprodução das desigualdades sociais. Há ambientes em que o trabalho, em vez de oportunidade de integração e melhoria da produção, transforma-se em instrumento de tortura. Os trabalhadores nesses espaços são controlados pelo

O CEARÁ E A ABOLIÇÃO: HISTÓRIA, CONQUISTA E DESAFIOS DO SÉCULO XXI

O Ceará foi a primeira província brasileira a abolir a escravidão. No dia 25 de março de 1884 o presidente da província, Sátiro Dias, anunciou: “O Ceará não possui mais escravo.” A luta abolicionista ganha grande impacto em 1880, com a fundação da Sociedade Libertadora Cearense, que impulsionou movimentos populares e ações abolicionistas. Os primeiros resultados concretos dessas mobilizações surgiram em 1º de janeiro de 1883, quando a então vila de Acarape (atual Redenção), libertou seus 115 escravizados. No mesmo ano, em 22 de outubro, Várzea Alegre também declarou o fim da escravidão em seu território, libertando seus 153 escravos e tornando-se a 15ª cidade cearense a realizar a abolição. Em 24 de março de 1884, as cidades cearenses de Jardim, Milagres e Arneiroz aderiram ao movimento abolicionista. No dia seguinte, 25 de março, o Ceará consolidava oficialmente o fim da escravidão, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea. Essa é a Data Magna do Ceará, símbolo maior da sua tradição libertária. A constância heroica dos cearenses quebrou as correntes da crueldade escravista, libertando a província das trevas da subjugação. Além da ação das sociedades abolicionistas, das pressões internacionais e das resistências dos próprios escravizados, a abolição na Terra

A CRISE DA AÇÃO COMUNICATIVA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

No dia 16 de março, o mundo perdeu Jürgen Habermas (1929-2026), notável filósofo dos séculos XX e XXI. Em sua extensa obra, a comunicação ocupa posição central, considerada como a ação que mais influencia a qualidade das relações humanas e, consequentemente, a possibilidade de organização política entre os povos. Vale reforçar que a ação comunicativa tal como concebida por Habermas, não se reduz a um mero diálogo, mas sim a um processo racional livre de imposições e orientado ao entendimento e crescimento mútuos. A história do homem não se resume a uma sequência de fatos e avanços tecnológicos. Deve também ser considerada como elemento do processo histórico a qualidade da comunicação estabelecida entre os diferentes povos. Da comunicação pode surgir relação de entendimento ou de dominação. A forma de comunicação, desde priscas eras, define a qualidade de vida e crescimento humano. Onde brotou a manipulação discursiva vicejaram os regimes autoritários e onde floresceu a relação dialógica progrediu a liberdade de escolha proporcionando a participação popular nos rumos da história. Como é notório, a caminhada do “homo sapiens” foi frequentemente movida por interesses; nesses momentos, quando houve o diálogo, este se limitou à imposição, onde um fala e outros apenas escutam