Author: Dagoberto Diniz

FORMAÇÃO INTEGRAL E A NECESSÁRIA VALORIZAÇÃO DAS CIÊNCIAS HUMANAS

Há muito tempo presenciamos, na educação brasileira, sobretudo no Ensino Médio, a priorização do ensino da Matemática, Língua Portuguesa, Física, Química e Biologia, como se esses conhecimentos fossem os únicos necessários à formação cidadã. É indiscutível a importância dessas áreas de estudo, entretanto convém compreender que, para a formação humana integral, tão prometida pela educação brasileira, apenas esses saberes não são suficientes. É necessário que haja outros olhares sobre o mundo e o próprio homem. Nesse caso, reputo imperioso que o mesmo tratamento privilegiado dispensado àqueles componentes curriculares seja também oferecido ao ensino das Ciências Humanas em todas as escolas do país.   Estudar a realidade sob a perspectiva das disciplinas das áreas de Linguagens, de Matemática, e de Ciências da Natureza (e suas tecnologias) é muito importante; contudo, insuficiente para apreender a complexidade que envolve tanto o mundo quanto a existência humana. Lamentavelmente essa é uma realidade das escolas brasileiras, sobretudo as de ensino médio. Esta não é uma opção dos professores, mas uma determinação das instâncias superiores, que priorizam as matérias de Matemática e de Língua Portuguesa, como se, sozinhas, fossem capazes de proporcionar a consciência crítica. Essa realidade é perceptível não apenas na redução do número de

DESMATAMENTO, CONSUMISMO E CRISE CLIMÁTICA

O neurocientista Miguel Nicolelis destaca, em entrevista ao programa “Opera Mundi” (5 de maio de 2026), conduzida por Breno Altman, que “nós somos a única espécie no mundo que conspira pra sua própria extinção.” Essa observação pode ser compreendida a partir da análise da relação entre a humanidade e a natureza. Ao longo do tempo, o meio natural foi essencial para a sobrevivência humana. Entretanto, com o advento da Revolução Industrial, essa relação se torna predatória, e o que antes era fundamental à vida passa a ser utilizado como uma oportunidade de lucro, ou seja, como mercadoria. Para sobreviver, o homem precisa da natureza e, pelo trabalho, transformá-la em base essencial para a vida. Acontece que, com a industrialização, ela tornou-se mercadoria, um componente para o acúmulo de riqueza. As florestas, os animais, as águas dos mares, rios e lagos, o ar passaram a ser utilizados para satisfazer a sede insaciável de lucro dos grandes grupos econômicos. A forma mercantil de exploração do ambiente natural tem gerado benefícios financeiros para determinados setores e prejuízos ambientais e sociais à humanidade. O desmatamento e a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural são atividades responsáveis pela emissão de gases

A ARTE COMO EXPRESSÃO CRÍTICA DA REALIDADE SOCIAL

Compreendo a arte como uma forma de expressão de elevada importância no desenvolvimento intelectual, emocional, social e cultural do ser humano. Por isso, não tenho dúvida em afirmar: é pouco viável a escola praticar formação humana integral quando divorciada do ensino da arte. Silenciar ou simplesmente reduzir essa linguagem simbólica ao entretenimento é comprometer a atitude crítica e reflexiva que são elementos indispensáveis da formação cidadã. São diversas as modalidades de arte: literatura, pintura, música, teatro, cinema, escultura, dança, artesanato, grafite, entre outras. Por meio dessas representações simbólicas, o artista pode expressar a sua visão de mundo, suas opiniões, uma denúncia das injustiças sociais, motivando a reflexão sobre as contradições sociais e os problemas que afligem o ser humano. Nas escolas, valendo-se da utilização dessas linguagens artísticas a educação contribuirá amplamente para a criatividade, sensibilidade, comunicação e sobretudo para o desenvolvimento da consciência crítica dos alunos. Mas será que a questão se trata apenas de inserir arte no currículo escolar? E como deve ser compreendida a arte: como cópia bem acabada do mundo e naturalizando a realidade ou como uma expressão de crítica das estruturas sociais? Paul Klee (1879-1940), conceituado pintor suíço ensinava que “a arte não reproduz o visível;

A PASSIVIDADE E A CRISE DE REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

A omissão e a inércia diante dos fatos, ao mesmo tempo que fortalecem a classe dominante, aniquilam os direitos sociais dos dominados. Desconheço o povo que tenha conquistado os direitos e garantias essenciais do ser humano apenas assistindo à história. Quem se mantém envolvido unicamente pela esperança, desprovido de atitudes questionadoras e de ações voltadas para a transformação social, perpetua-se resignado diante da violação da dignidade humana. Calados e conformados simplesmente fortalecemos as estruturas de poder. “Quem espera sempre alcança”, diz o ditado popular. A história mostra que os povos oprimidos só conquistaram avanços sociais quando, além da esperança, passaram a questionar e a intervir na ordem vigente a fim de transformá-la. O compositor Chico Buarque de Holanda é autor de “Carolina”, uma obra de 1967. É uma canção que, à primeira vista, trata de uma tristeza amorosa, mas que traz nas entrelinhas uma metáfora da resignação silenciosa: “Eu bem que mostrei a elaO tempo passou na janelaSó Carolina não viu” Carolina é representada como a pessoa que fica apenas assistindo aos fatos do cotidiano e sendo afetada por eles, contudo sem o juízo crítico, sem intervenção e sem manifestar impulso para uma transformação social. Carolina pode ser interpretada como

POLÍTICA: COMPROMISSO COM A JUSTIÇA SOCIAL

Diante dos rumos da política brasileira, a curiosidade nos estimula a formular perguntas: Se a política deve buscar o bem da coletividade, por que alguns grupos governam e legislam ignorando o bem-estar da população e, ainda assim, continuam sendo eleitos? Além disso, fazer política é uma responsabilidade apenas dos políticos? As respostas a essas questões podem ser percebidas não apenas nos livros de filosofia e ciência política, mas também nas práticas de homens e mulheres que se elegem com a promessa de promover o bem comum. A palavra política vem do grego “politiké”, que significa arte de governar a cidade, tendo em vista a realização de vida melhor para os cidadãos. Comparando o conceito etimológico com a realidade contemporânea brasileira, percebe-se que a política do progresso social permanece como mera abstração. Conhecemos a satisfação do interesse coletivo apenas nos discursos demagógicos, nas páginas dos socialistas utópicos, na obra de Campanella e na Pasárgada dos versos de Manuel Bandeira. A maioria dos políticos defendem e agem como defensores das vontades da elite econômica em detrimento da maioria dos cidadãos. Colocar o mandato popular na defesa dos direitos sociais da população tem sido uma prática ignorada por grande parte da representação política

13 DE MAIO: ABOLIÇÃO JURÍDICA SEM INCLUSÃO SOCIAL

Há 146 anos a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Um gesto sublime, enquanto ato jurídico, posto que libertou os negros dos grilhões que os prendiam fisicamente aos seus senhores por mais de três séculos. Entretanto, a lei não foi suficiente para a emancipação social dos negros. Eles foram simplesmente jogados ao abandono, sem uma política que lhes garantisse as condições mínimas de existência. A lei foi cumprida, mas apenas para libertá-los da senzala. A Lei Áurea era composta apenas de dois artigos: “Art. 1º – É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil; Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário.” A brevidade do texto legal, sugere que uma simples libertação jurídica dos negros seria suficiente; ou seja, que o importante era considerar os negros juridicamente livres, não importando a inserção social, política e econômica de todos os libertos a partir de então. A insuficiência normativa isentou o Estado imperial brasileiro da responsabilidade pela situação do negro após a abolição. A lei nada acrescentou em termos de medida concreta para assegurar vida melhor para os ex-escravos. Eles simplesmente foram jogados nas ruas, sem indenização, sem terra, sem acesso à educação, sem trabalho, sem cidadania. A

JUBILEU DE CRISTAL DA ACADEMIA VARZEALEGRENSE DE LETRAS

Há 15 anos nascia a Academia Varzealegrense de Letras (AVL). Em 7 de maio de 2011 ocorreu a instalação dessa casa das letras, bem como a posse de seus primeiros acadêmicos. Essa data é muito especial para a cultura local, pois anuncia uma nova era: o resgate da obra dos escritores que não estão mais conosco, a divulgação dos autores atuais e o incentivo àqueles que desejam cultivar a literatura na terra de Papai Raimundo. A augusta academia de letras de Várzea Alegre foi fundada por oito escritores: Pedro Sátiro, Marco Filho, Irismar Araripe, Dagoberto Diniz (primeiro presidente), Tibúrcio Bezerra, Liduina Sousa, Hélio Batista e Cosma Ferreira. Inicialmente o silogeu funcionava em uma sala especial no prédio da Secretaria Municipal de Educação, equipada com birô, cadeiras, estante e um computador, cedidos gentilmente pelo então prefeito Zé Hélder. Foi nesse espaço que os acadêmicos fundadores promoveram os debates e reflexões sobre a produção dos escritores locais. Além disso, foi o momento de planejamentos e programações destinados à divulgação e ao fortalecimento da cultura. A academia, além das atividades culturais, preocupou-se também com as questões burocráticas. Nesse sentido, providenciou, em cartório local, o registro dos seguintes documentos: a ata de fundação, a

OS LIMITES DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA BRASILEIRA

A democracia tem suas origens na Grécia Antiga, na cidade de Atenas, no século V a.C. Sólon e Clístenes contribuíram significativamente para reformas e para a organização da participação política. Mas foi com Péricles que a democracia ateniense se fortaleceu e conheceu o seu apogeu. Mais de 2.500 anos depois, o regime democrático continua vivo, contudo atacado e limitado em alguns lugares e mais fortalecido em outros. A ordem democrática é respeitada por alguns chefes de Estado, mas debilitada pela ação desagregadora de líderes autoritários. A palavra democracia vem do grego “demos” (povo) e “kratos” (poder), e quer dizer o governo do povo. Em Atenas a democracia era direta, ou seja, o povo participava das decisões políticas em praça pública, mas somente os homens gregos podiam participar da vida política. As mulheres, os estrangeiros e os escravos eram excluídos das decisões sobre os rumos da cidade. Era uma democracia, portanto limitada. O ex-presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln (1809-1865), ampliou esse conceito ao afirmar: governo do povo, pelo povo e para o povo. Ou seja, que além de o poder pertencer ao povo, o governante deve ser escolhido pelo voto e governar em benefício da sociedade. No Brasil, a democracia

A PESSOA HUMANA: DA APARÊNCIA AO MUNDO DO SER

Tem sido recorrente a forma de julgar alguém, tendo como medida a aparência. Reduzir a pessoa a essa dimensão é ignorar os valores que orientam a vida, as formas de compreender, sentir, imaginar; a sua interioridade, enfim. Somos muito mais do que um rosto, uma altura, um peso, a cor da pele e dos olhos, a qualidade dos cabelos e status social. Que alguém seja avaliado ou mensurado, desde que o seja a partir das suas atitudes, da sua trajetória, do seu projeto de vida, pela forma como encara os desafios.    Julgar pela aparência é prática arraigada na sociedade. Frequentemente, com o primeiro olhar, as pessoas já são definidas, de forma positiva ou negativa. É de lamentar que esse procedimento frágil e equivocado seja empregado para compreender o ser humano. É necessário entender que além da aparência, homens e mulheres têm o seu mundo interior, que é complexo, não sendo, pois, pelas características externas que iremos conhecê-los melhor, muito menos defini-los.  “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” já dizia Fernando Pessoa. Essa reflexão do poeta português define muito bem a verdadeira medida para avaliar e perceber a pessoa humana. Ou seja, que

“DESCOBRIMENTO DO BRASIL”, COLONIALISMO E COLONIALIDADE

Tornou-se comum a afirmação de que o Brasil foi descoberto pelo senhor Pedro Álvares Cabral em 22 de abril de 1500, ou seja, há 526 anos. Nesse caso, eu pergunto: como pode ter sido descoberto por portugueses, se o nosso território já era habitado por milhões de indígenas desde priscas eras? Os fatos comprovam que não houve descobrimento, mas a chegada do europeu, mais tarde transformada em invasão, resultando em problemas que, em pleno século XXI continuam afetando a sociedade brasileira. Estudos da arqueóloga Niéde Guidon, confirmam a presença de pessoas no Brasil há cerca de 40 mil anos. Temos ainda a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita logo após a chegada dos portugueses ao Brasil. Esse documento é considerado o primeiro registro escrito sobre o Brasil. Em uma de suas linhas ele destaca: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. Tais fatos comprovam que o evento de 22 de abril representou apenas a chegada dos portugueses, jamais a descoberta do Brasil. Falar em “descobrimento do Brasil” não se trata de um mero engano de linguagem, mas um indício explícito do eurocentrismo e do olhar etnocêntrico. Ou seja, a arquitetura ideológica utilizada para apresentar