Tornou-se comum a afirmação de que o Brasil foi descoberto pelo senhor Pedro Álvares Cabral em 22 de abril de 1500, ou seja, há 526 anos. Nesse caso, eu pergunto: como pode ter sido descoberto por portugueses, se o nosso território já era habitado por milhões de indígenas desde priscas eras? Os fatos comprovam que não houve descobrimento, mas a chegada do europeu, mais tarde transformada em invasão, resultando em problemas que, em pleno século XXI continuam afetando a sociedade brasileira.
Estudos da arqueóloga Niéde Guidon, confirmam a presença de pessoas no Brasil há cerca de 40 mil anos. Temos ainda a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita logo após a chegada dos portugueses ao Brasil. Esse documento é considerado o primeiro registro escrito sobre o Brasil. Em uma de suas linhas ele destaca: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. Tais fatos comprovam que o evento de 22 de abril representou apenas a chegada dos portugueses, jamais a descoberta do Brasil.
Falar em “descobrimento do Brasil” não se trata de um mero engano de linguagem, mas um indício explícito do eurocentrismo e do olhar etnocêntrico. Ou seja, a arquitetura ideológica utilizada para apresentar o europeu como responsável pela busca de novas terras e assim levar a civilização para os povos atrasados.
De buscar novas terras, isso é verdade, mas para atender aos seus interesses mercantis a qualquer custo. E quanto a levar a civilização aos povos atrasados, há um engano, pois foi a barbárie, que aqui se manifestou provocando a matança de indígenas e de escravos negros.
O olhar do português não foi civilizador, muito menos humanista; representou simplesmente uma observação atenta acerca do que as terras encontradas poderiam render de lucro para os cofres da coroa portuguesa.
O 22 de abril é uma data que devemos lembrar, não como evento destinado à exaltação dos portugueses opressores, como frequentemente tem sido feito; mas para refletir sobre o seu significado, que para o Brasil e para a maioria dos brasileiros representou:
- A transformação do território encontrado em fonte de matéria-prima para o enriquecimento da metrópole.
- A imposição de uma língua e de uma religião. Um profundo desrespeito aos costumes e às vivências dos indígenas. Um verdadeiro atentado à cultura dos donos da terra.
- A implantação do trabalho escravo, da monocultura e do latifúndio para o acúmulo de lucro dos colonizadores.
- O racismo estrutural.
- O genocídio e o etnocídio.
Sobre esses alicerces o Brasil foi construído. O país evoluiu, mas sem conseguir romper com as estruturas do atraso: a sociedade racista e as profundas desigualdades sociais.
O pensador alemão Karl Marx já lembrava em sua célebre obra, O Capital, que a acumulação de riqueza (acumulação primitiva) pelas elites econômicas tem suas origens, não no trabalho diligente e respeitoso, mas na expropriação colonial, no saque, na escravidão e na violência.
Diante desse contexto dantesco, vale perguntar? Qual foi a reação dos dominados? Os explorados e espoliados resistiram, sim, por meio das revoltas armadas, da formação dos quilombos, das fugas e outras formas de antagonismo.
Sobre esse aspecto Marx também se manifestou, desta feita na obra Manifesto Comunista, dizendo que “A história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes”.
A colonização chegou ao fim, mas deixou a colonialidade, seu rebento igualmente lesivo. Ou seja, permanecem as formas de dominação, persistindo a valorização do branco, sua cultura, conhecimentos, e a inferiorização do negro e do indígena.
Tem sido comum entre muitos brasileiros, estar sempre sorrindo para valores, costumes e saberes que vêm de fora, expressando uma imensurável indiferença às coisas da terra. As vivências dos países europeus, dos Estados Unidos e das grandes capitais são geralmente enaltecidos e imitados servilmente por parte de algumas mentes ainda colonizadas.
A colonização é tão letal que, além de destruir a economia e empobrecer a colônia, cria um clima de insegurança, medo e complexo de inferioridade no colonizado. Este introjeta o pensamento de que a superioridade está no conhecimento que vem de fora, sendo a pessoa branca a mais dotada de capacidade e apta a exercer o poder.
Libertar as pessoas que se curvam à hidra colonial e imperialista, eis a luta que devemos travar. Mas para isso é necessário, a priori, que a educação proporcione a formação do pensamento crítico da população. É imprescindível que o acesso à escola signifique construção e conquista da consciência crítica.
Educar exige um esforço ingente de todos que constituem a escola e também das famílias dos estudantes. É fundamental que alunas e alunos concluam a educação básica com capacidade para compreender, questionar e transformar o mundo.
Muitos livros didáticos ainda se encontram acorrentados à visão de mundo do colonizador. Temos que iniciar uma luta inteligente e organizada pela descolonização.
Que a convivência ocorra sem a absorção acrítica das coisas que vêm de fora. Andar com as próprias pernas não é negar o diálogo, mas rejeitar tudo o que pode subtrair a dignidade humana.
Dagoberto Diniz
