A PASSIVIDADE E A CRISE DE REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

A omissão e a inércia diante dos fatos, ao mesmo tempo que fortalecem a classe dominante, aniquilam os direitos sociais dos dominados. Desconheço o povo que tenha conquistado os direitos e garantias essenciais do ser humano apenas assistindo à história. Quem se mantém envolvido unicamente pela esperança, desprovido de atitudes questionadoras e de ações voltadas para a transformação social, perpetua-se resignado diante da violação da dignidade humana. Calados e conformados simplesmente fortalecemos as estruturas de poder.

“Quem espera sempre alcança”, diz o ditado popular. A história mostra que os povos oprimidos só conquistaram avanços sociais quando, além da esperança, passaram a questionar e a intervir na ordem vigente a fim de transformá-la.

O compositor Chico Buarque de Holanda é autor de “Carolina”, uma obra de 1967. É uma canção que, à primeira vista, trata de uma tristeza amorosa, mas que traz nas entrelinhas uma metáfora da resignação silenciosa:

“Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
Só Carolina não viu”

Carolina é representada como a pessoa que fica apenas assistindo aos fatos do cotidiano e sendo afetada por eles, contudo sem o juízo crítico, sem intervenção e sem manifestar impulso para uma transformação social. Carolina pode ser interpretada como uma representação do conformismo servil, aquela atitude que contribui para a perpetuação da dominação estrutural.

Chico Buarque buscou não apenas criticar o conformismo de pessoas que transformam a própria vida em uma trajetória de contemplação e quietismo, mas também alertar os brasileiros oprimidos para a importância do envolvimento coletivo na história do país.

Esse alerta do consagrado compositor carioca permanece muito válido para os dias atuais. Observando o comportamento dos brasileiros, é possível perceber o conformismo da maioria, deixando transparecer que a participação política se resume ao voto. Enquanto a exploração e os intermináveis atentados à dignidade humana acontecem, grande parte das vítimas mantém uma postura contemplativa, tal como Carolina, em seu consentimento silencioso.

A história brasileira até parece uma obra de ficção. A população elege seus representantes, mas muitos deles acabam defendendo os interesses da elite financeira em detrimento das necessidades dos trabalhadores.

A história tem mostrado que a resignação do povo diante das arbitrariedades da classe dominante apenas contribui para adiar o bem-estar coletivo.

A tentativa de golpe de Estado, o negacionismo científico, o anti-intelectualismo, os escândalos financeiros e as manifestações racistas, misóginas, homofóbicas e elitistas são diariamente reproduzidos por muitos de nossos representantes políticos, justamente aqueles que mais deveriam combatê-las.

A crise de representação política que tomou conta do Brasil resultou no aprofundamento dos problemas sociais. Simplesmente esperar que a situação melhore, repetindo a atitude de “Carolina”, significa, na verdade, aprofundar a crise de legitimidade política.

Há dois caminhos para enfrentarmos o colapso político. Primeiramente, identificar os políticos vigaristas e afastá-los da vida pública por meio do voto. Em seguida, de forma permanente, acompanhar rigorosamente o comportamento dos nossos representantes. Nesse trabalho, a pressão e a mobilização contra os responsáveis pelos desvios éticos são indispensáveis.

Essas são as atitudes que devemos ter agora mesmo, a fim de fecharmos as portas aos políticos demagogos. Se eles permanecerem na vida pública é sinal de que fomos derrotados por nossas ações e omissões.

Dom Hélder Câmara já alertava: “Todo homem, cada homem, é responsável pelo destino da humanidade por suas ações e omissões”.

Dagoberto Diniz

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