AS ALMAS PEQUENAS EM PLENA ATIVIDADE

A sociedade é notoriamente diversa. As pessoas são diferentes não apenas no aspecto físico, como também nas formas de pensar, sentir, perceber e agir. Ou seja, cada um tem o seu jeito de ser diante do outro e dos fatos cotidianos. Isso é normal, contudo, encontra seus limites quando interfere na liberdade de alguém. Nesse caso, cito aquele comportamento extremamente prejudicial, não apenas aos seus autores, mas principalmente aos que estão ao seu redor. Refiro-me a homens e mulheres que, desdenhosamente, se acham superiores e “donos da verdade”.

O notável escritor russo, Nicolai Gogol (1809-1852) é conhecido pelas suas obras de crítica social, onde destacou com singular habilidade a decadência moral da sociedade russa, expondo a hipocrisia e a corrupção da sua época.

Das suas reflexões sapientes, esse notável autor concluía: “Se a alma de uma pessoa é pequena, ela encolhe tudo ao seu redor.”

Esse diagnóstico social do genial Gogol foi feito no século XIX e ainda se encontra plenamente válido para o século XXI, sobretudo no Brasil.

A “Alma pequena” na consideração do autor russo nada tem a ver com pessoas desprovidas de formação acadêmica. A afirmação desse renomado escritor refere-se àquelas pessoas eticamente pequenas e incapazes de se colocarem no lugar do outro. É uma alusão aos indivíduos mesquinhos, repletos de inveja, de rancor e de ressentimentos. Alude, ainda àqueles que, ao conquistarem o poder no trabalho ou na política, logo revelam seu perfil de “donos da verdade”, bem como o espírito vingativo, autoritário e persecutório.

Gente assim, sem dúvida, “encolhe tudo ao seu redor”, tornando o ambiente, além de repressivo, vulnerável, pleno de insegurança e medo. Diria um ambiente inadequado para a boa convivência e, consequentemente para a produção de ideias e pensamentos profícuos.

Pessoas com a recorrência dessas práticas soberbas depreciam a si mesmas, e acabam por minar o prestígio e o respeito que outrora usufruíam. A história é pródiga em exemplos de queda das almas pequenas.

A arrogância segue uma trajetória que geralmente tem um fim desfavorável: ela surge, se desenvolve, chega ao seu ápice e depois começa a gerar as forças contrárias responsáveis pelo seu declínio. Ou seja, não seria exagero dizer que os arrogantes já trazem, nas suas práticas reprováveis, os elementos da própria ruína.

Assim chegam ao fim as falsas lideranças, os “senhores da verdade”, os autores da violência simbólica.

Indivíduos de alma pequena contaminam o ambiente, provocando nas pessoas alienação e conformismo doentio diante das injustiças sociais.

O naturalista sueco Lineu, no século XVIII denominou a nossa espécie de Homo sapiens, quer dizer, homem sábio. Uma postura talvez otimista ou idealista quando verificamos os comportamentos desumanos, historicamente praticados pelos seres racionais.

Diante de tal paradoxo, eu pergunto: será mesmo que um indivíduo arrogante, racista, misógino, homofóbico, elitista, negacionista, mentiroso, e que passa a vida destilando ódio, ressentimento e animosidade, é realmente digno da denominação sapiens?

Por conta dos exemplos recorrentes de indiferença e desrespeito à dignidade humana, muitos “racionais” ainda não honraram a designação Homo sapiens.  De quando em quando cruzamos com eles, nas ruas, no trabalho, no mundo da política e pasmem: até mesmo na educação.

É de lamentar que as almas pequenas ainda encontrem a aprovação de determinados setores da sociedade.  Elas continuam ocupando cargos em instituições públicas, e poder político em diferentes instâncias, todos reconhecidos e aprovados pelo voto.

De tudo isso, vejo importante sublinhar: ninguém nasce arrogante, invejoso, racista, misógino, homofóbico, negacionista, ressentido ou mentiroso. Essas condutas antissociais são desenvolvidas nas relações sociais. Como adquiridas, logicamente que podem encontrar o seu questionamento e superação.

As almas pequenas representam um poder lesivo à democracia. Enfrentá-las? Só vejo de uma forma: a formação crítica da população. Enquanto a educação não proporcionar o espírito questionador e de resistência à tirania, os agentes da opressão continuarão fazendo suas vítimas.

É vital superarmos as almas pequenas, não pela violência, mas pela força dos argumentos.

Dagoberto Diniz

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