Por que uma criança se mata?

por que uma criança se mata

Uma pergunta que nossa cidade tem feito e que o Brasil não pode continuar ignorando

Estarrecida, nossa região teve a perda de uma menina de 12 anos. Uma criança. Uma família agora carrega uma dor que nenhuma palavra consegue nomear completamente. Não é o momento de julgamentos e nunca será. Mas é, sim, o momento de perguntas. Quando uma criança morre assim, o silêncio não protege ninguém. Falar, com responsabilidade e com cuidado, é o mínimo que a sociedade deve a essa família e a todas as que poderão enfrentar o mesmo.

A pergunta que fica suspensa no ar e que o Brasil inteiro precisa responder: por que uma criança se mata?

Uma tragédia que não é isolada

O suicídio infantil ainda causa espanto porque parece impossível, e é justamente esse espanto que atrasa a resposta. Em 2021, foram registrados 200 casos de suicídio na faixa etária de 5 a 14 anos no país, o maior número por ano desde 1996. Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, cerca de mil crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos tiram a própria vida no Brasil a cada ano, o equivalente a dois ou três jovens por dia, são dados da Agência Brasil. E os especialistas alertam que esses números são, provavelmente, ainda maiores: muitos casos são subnotificados, registrados como acidentes ou quedas.

Entre 2011 e 2022, a taxa de suicídio entre jovens cresceu 6% ao ano no Brasil, num ritmo que supera o da população em geral, cuja taxa cresceu 3,7% ao ano no mesmo período, de acordo com dados divulgados pela Agência Brasil. Um estudo da Fiocruz mostra que, em 2022, a probabilidade de suicídio entre adolescentes de 10 a 19 anos tornou-se 21% maior do que entre jovens adultos: inversão que não existia antes da pandemia. 

Esses não são números abstratos. São filhos, filhas, netos, alunos, vizinhos. São crianças de cidades como a nossa.

Meninas tentam mais. Meninos morrem mais. E as meninas, agora, também.

Há uma compreensão consolidada na saúde pública de que o suicídio consumado é estatisticamente mais prevalente entre homens. As meninas são as que mais tentam o suicídio, enquanto os meninos o fazem de forma mais letal. Muitas famílias consideram esses episódios como algo feito para chamar atenção quando, na realidade, de duas a três tentativas precedem a morte. Ignorar uma tentativa como “drama” pode ser um erro irreversível.

O que os dados mais recentes mostram, no entanto, é que essa diferença entre os sexos está se estreitando entre as crianças. A vulnerabilidade ao sofrimento emocional, ao isolamento, ao bullying, ao julgamento das redes, ao abuso silencioso, vem produzindo consequências cada vez mais graves também entre meninas.

O mundo digital: porta de entrada para o abuso

Não há como saber, a esta distância e sem investigação adequada, qual foi exatamente o papel do ambiente digital nessa história. Mas a preocupação é legítima e não é uma paranoia.

Um estudo da consultoria britânica Revealing Reality revelou que crianças muito pequenas conseguem acessar cenários sexualizados dentro do Roblox, com avatares em poses explícitas e interações inapropriadas, isso mesmo com os filtros declarados pela plataforma. Especialistas alertam que agentes criminosos exploram a interconectividade dessas plataformas para aliciar crianças, especialmente meninas, para práticas de cyberbullying, autolesão e tentativas de suicídio. 

Nos Estados Unidos, apenas em 2025, mais de 20 processos federais foram movidos contra o Roblox acusando a plataforma de facilitar exploração sexual infantil. Um dos casos mais conhecidos é o de um jovem de 15 anos, que foi manipulado por um adulto que se passava por criança na plataforma e tirou a própria vida após anos de abuso silencioso.

O ambiente digital não é neutro. Ele pode ser, ao mesmo tempo, espaço de aprendizado e de predação. A diferença está na supervisão, na informação e na proteção que a sociedade oferece às crianças.

O suicídio não tem uma causa. Tem um contexto.

Reduzir a morte de uma criança a um único fator, seja um jogo, uma briga, uma nota ruim: é um erro que a ciência refuta sistematicamente. O suicídio infantil é multifatorial: envolve a interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entre os principais estão distúrbios emocionais como depressão e ansiedade, relações familiares conflitantes, abuso físico ou emocional, bullying e normas culturais que estigmatizam a vulnerabilidade emocional. 

O bullying escolar é frequentemente o segundo passo de uma sequência que pode levar crianças a enxergarem o suicídio como saída. A insatisfação vai se acumulando: pressão familiar, fracasso escolar, rejeição entre pares; até que o processo se torna cada vez mais acelerado. 

Uma criança que chega a esse ponto não acordou assim de manhã. Ela carregou, muitas vezes em silêncio, por semanas, meses, até anos, e os sinais estavam lá, nem sempre percebidos para quem estava perto.

O que os sinais parecem

Especialistas recomendam atenção a mudanças de comportamento: retraimento súbito, perda de interesse em atividades que antes amava, queda no rendimento escolar, irritabilidade intensa, insônia, falas sobre morte ou sobre “sumir”, distribuição de objetos queridos. A ausência de suporte emocional e a dificuldade de lidar com emoções intensas podem agravar quadros de depressão e ansiedade em crianças. Quando esses sinais aparecem, a resposta não é punir, cobrar ou minimizar, mas sim  acolher e buscar ajuda profissional.

O que falta ao Brasil

Apesar das estatísticas alarmantes, o Brasil não conta com serviços de atenção à saúde mental da criança e do adolescente suficientemente capilarizados na rede pública. Pesquisadores alertam que qualquer política pública nessa área corre o risco de se tornar obsoleta se não for baseada em dados nacionais atualizados e em uma realidade que não é a dos países desenvolvidos. 

É nesse vácuo que vivem as crianças de Várzea Alegre e região. Sem CAPS infanto-juvenil em funcionamento pleno, sem psicólogos em muitas escolas, sem campanhas de saúde mental nas comunidades e ainda por cima com acesso irrestrito a plataformas digitais que nenhuma legislação brasileira ainda regulou de forma eficaz.

Este é um debate que precisa chegar de forma séria na Câmara Municipal, na Secretaria de Saúde, nas escolas e nas famílias. Não depois do próximo caso. 

Nota importante: Além das pesquisas documentais e bibliográficas, pedi o parecer de alguns profissionais da área da Psicologia para a publicação deste texto.

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