A ARTE COMO EXPRESSÃO CRÍTICA DA REALIDADE SOCIAL

Compreendo a arte como uma forma de expressão de elevada importância no desenvolvimento intelectual, emocional, social e cultural do ser humano. Por isso, não tenho dúvida em afirmar: é pouco viável a escola praticar formação humana integral quando divorciada do ensino da arte. Silenciar ou simplesmente reduzir essa linguagem simbólica ao entretenimento é comprometer a atitude crítica e reflexiva que são elementos indispensáveis da formação cidadã.

São diversas as modalidades de arte: literatura, pintura, música, teatro, cinema, escultura, dança, artesanato, grafite, entre outras. Por meio dessas representações simbólicas, o artista pode expressar a sua visão de mundo, suas opiniões, uma denúncia das injustiças sociais, motivando a reflexão sobre as contradições sociais e os problemas que afligem o ser humano.

Nas escolas, valendo-se da utilização dessas linguagens artísticas a educação contribuirá amplamente para a criatividade, sensibilidade, comunicação e sobretudo para o desenvolvimento da consciência crítica dos alunos.

Mas será que a questão se trata apenas de inserir arte no currículo escolar? E como deve ser compreendida a arte: como cópia bem acabada do mundo e naturalizando a realidade ou como uma expressão de crítica das estruturas sociais?

Paul Klee (1879-1940), conceituado pintor suíço ensinava que “a arte não reproduz o visível; ela torna visível”.

Essa reflexão evidencia que produzir arte nada tem a ver com uma cópia bem feita da realidade. Fazer arte é uma forma do artista interpretar e recriar a realidade, desvelando seus aspectos ocultos, por meio de palavras, sons, cores, movimentos corporais, gestos, expressões, imagens, etc.

A obra de arte revela o que os olhos não conseguem perceber, como emoções, sentimentos, ideias, relações de poder, visões de mundo, etc.

Quando observada superficialmente, a obra de arte perde a sua significação profunda, a sua importância além das aparências, o seu lado pedagógico. Eis aí a importância da educação para desfazer as ilusões, para estimular o olhar que vá muito além do exame superficial.

A prática pedagógica, quando permeada pelo fazer artístico permite despertar nos alunos uma forma de olhar tanto o mundo quanto a si mesmos além da superfície, uma espécie de mergulho em águas profundas.  

Realizar a formação cidadã implica desenvolver o pensamento crítico e reflexivo dos alunos. Longe dessa perspectiva, o resultado pode ser a assimilação superficial da cultura (semiformação), e não propriamente educação. Educar está associado à formação integral da pessoa, o que exige, dentre outros aspectos, que os estudantes tenham acesso ao ensino de qualidade das diferentes manifestações estéticas.

Além disso, é imprescindível que a arte esteja presente no Projeto Político Pedagógico e seja vivenciada no cotidiano da sala de aula.

Entendo ser a escola um ambiente de grande relevância para o despertar do potencial artístico de alunas e alunos. Para isso, vejo como primordial o estudo da arte de forma interdisciplinar, como uma prática comum entre os professores de todos os componentes curriculares.

Bertold Brecht, o notável dramaturgo alemão, entendia a arte como uma forma de expressar a sociedade revelando suas contradições, problemas e desafios. Para ele, fazer arte é estar conectado ao ser humano e à realidade social, denunciando injustiças e estruturas desumanas. A arte era, assim, um caminho para a conscientização, a emancipação e a transformação social.

São inúmeros os autores que utilizaram a arte como forma de crítica social, tanto no Brasil quanto no mundo, como Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Bertolt Brecht, George Orwell, Victor Hugo, na literatura; Chico Buarque, Elza Soares, Bob Dylan, na música; Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Pablo Picasso, na pintura; entre outros.

Esses são apenas alguns exemplos de autores que retratam as contradições sociais por meio das diferentes linguagens artísticas.  

Sem arte corremos o risco de fazer do mundo um espetáculo de aparências, ocultando suas contradições e naturalizando as injustiças sociais.

Dagoberto Diniz

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