DESMATAMENTO, CONSUMISMO E CRISE CLIMÁTICA

O neurocientista Miguel Nicolelis destaca, em entrevista ao programa “Opera Mundi” (5 de maio de 2026), conduzida por Breno Altman, que “nós somos a única espécie no mundo que conspira pra sua própria extinção.” Essa observação pode ser compreendida a partir da análise da relação entre a humanidade e a natureza. Ao longo do tempo, o meio natural foi essencial para a sobrevivência humana. Entretanto, com o advento da Revolução Industrial, essa relação se torna predatória, e o que antes era fundamental à vida passa a ser utilizado como uma oportunidade de lucro, ou seja, como mercadoria.

Para sobreviver, o homem precisa da natureza e, pelo trabalho, transformá-la em base essencial para a vida. Acontece que, com a industrialização, ela tornou-se mercadoria, um componente para o acúmulo de riqueza. As florestas, os animais, as águas dos mares, rios e lagos, o ar passaram a ser utilizados para satisfazer a sede insaciável de lucro dos grandes grupos econômicos.

A forma mercantil de exploração do ambiente natural tem gerado benefícios financeiros para determinados setores e prejuízos ambientais e sociais à humanidade. O desmatamento e a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural são atividades responsáveis pela emissão de gases do efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global e colocando em risco a vida no planeta.

Esse processo de degradação ambiental tem como resultado o aumento de eventos climáticos extremos como secas intensas, chuvas torrenciais, enchentes e incêndios florestais, além de efeitos indiretos como o empobrecimento dos solos, fome e doenças.

O aumento da temperatura do planeta tem provocado o derretimento de geleiras, o que pode representar a liberação de vírus e outros microrganismos congelados há milhares de anos. A possibilidade de doenças a partir desses microrganismos já desperta a preocupação de muitos cientistas.

Até hoje, ainda não foram criadas ações eficientes para deter os efeitos da ação lesiva do homem sobre o nosso patrimônio natural. Os Tratados internacionais e as Conferências do Clima da ONU, conhecidas como COPs, existem há mais de três décadas e ainda não conseguiram conter o aquecimento global. Esses eventos internacionais têm se mostrado limitados para resolver o problema, o que pode ser comprovado com o aumento das emissões anuais de gás carbônico desde a Rio-92.

Esses encontros internacionais não questionam a organização da economia, falam em resolver a crise mundial, contudo sem combater a raiz do problema, ou seja, sem buscar a transformação do sistema econômico. Na realidade a intenção é administrar as consequências da crise que é estrutural. E como esses encontros se apresentaram até hoje, tudo indica não haver interesse em resolver a questão.

O combate inteligente e objetivo ao aquecimento global exige freios nos exageros dos lucros e na estimulação do consumismo.

O Brasil, de acordo com os dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, apresentou significativa queda das emissões, saindo de 2,6 bilhões de toneladas em 2022, para 2,145 bilhões de toneladas em 2024. Esse declínio é atribuído à redução do desmatamento na Amazônia que, segundo o Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes), apresentou: para o período de agosto de 2023 a julho de 2024, redução de 30,63% em relação ao período de agosto de 2022 a julho de 2023.

O atual presidente norte-americano Donald Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, um compromisso para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Tal atitude pode explicar a preferência da Casa Branca em colocar os interesses do mercado acima das necessidades basilares da população.

Diante da crise ambiental ficam as indagações: será que é moralmente legítimo explorar os recursos naturais para satisfazer o mercado? É correto explorar o meio natural sem pensar nas gerações futuras? Por que as Conferências do Clima ainda não conseguiram conter o aquecimento global? Será que a superação do problema ainda não aconteceu por representar redução dos lucros das grandes empresas?

O filósofo Karl Marx e o sociólogo John Bellamy Foster entendiam que no modo de produção capitalista ocorre uma ruptura metabólica, ou seja, uma interferência no intercâmbio material entre a sociedade e a natureza.

As águas, as árvores, o solo, as montanhas e o ar, a cada dia desvanecem como fonte de vida, ora pela poluição, ora pela destruição.

De acordo com um conhecido provérbio atribuído a um indígena americano, “quando a última árvore for abatida, quando o último rio for envenenado, quando o último peixe for capturado, somente então nos daremos conta de que não se pode comer dinheiro.”

Dagoberto Diniz

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