FORMAÇÃO INTEGRAL E A NECESSÁRIA VALORIZAÇÃO DAS CIÊNCIAS HUMANAS

Há muito tempo presenciamos, na educação brasileira, sobretudo no Ensino Médio, a priorização do ensino da Matemática, Língua Portuguesa, Física, Química e Biologia, como se esses conhecimentos fossem os únicos necessários à formação cidadã. É indiscutível a importância dessas áreas de estudo, entretanto convém compreender que, para a formação humana integral, tão prometida pela educação brasileira, apenas esses saberes não são suficientes. É necessário que haja outros olhares sobre o mundo e o próprio homem. Nesse caso, reputo imperioso que o mesmo tratamento privilegiado dispensado àqueles componentes curriculares seja também oferecido ao ensino das Ciências Humanas em todas as escolas do país.  

Estudar a realidade sob a perspectiva das disciplinas das áreas de Linguagens, de Matemática, e de Ciências da Natureza (e suas tecnologias) é muito importante; contudo, insuficiente para apreender a complexidade que envolve tanto o mundo quanto a existência humana.

Lamentavelmente essa é uma realidade das escolas brasileiras, sobretudo as de ensino médio. Esta não é uma opção dos professores, mas uma determinação das instâncias superiores, que priorizam as matérias de Matemática e de Língua Portuguesa, como se, sozinhas, fossem capazes de proporcionar a consciência crítica.

Essa realidade é perceptível não apenas na redução do número de aulas, mas também na distribuição dos horários e nos momentos de planejamento pedagógico, que não acrescentam discussões consistentes sobre o que e como trabalhar o conhecimento sociohumanístico. Além disso, a área das humanas é ignorada nas avaliações externas em larga escala, como o SPAECE (Estadual) e o SAEB (Nacional – para fins do IDEB).

Nessa perspectiva, o aluno passa a ser avaliado cognitivamente de forma limitada, uma vez que são ignorados os conhecimentos indispensáveis à formação da visão de mundo.

Para contemplar a amplitude da formação humana, as unidades curriculares das Ciências Humanas, como Filosofia, História, Sociologia e Geografia, são essenciais. Não há estudo do mundo e do ser humano que se pretenda integral quando divorciado desses campos do conhecimento. Sem valorizar o ensino das humanidades, o currículo sofre limitações e, por conseguinte, compromete a formação necessária à plena realização das potencialidades humanas.

Desprestigiar os estudos humanísticos significa considerar dispensáveis a história dos povos, a cultura, o pensamento filosófico e a compreensão do homem como sujeito social e político. A indiferença às Ciências Sociais e Humanas constitui um obstáculo ao desenvolvimento da consciência crítica e, consequentemente, para a formação plena da pessoa humana. Optar por esse caminho pedagógico é o mesmo que contribuir para a reprodução da semiformação.

A escola, ao se distanciar das Ciências Humanas, limita as possibilidades de alunas e alunos desenvolverem uma postura crítico-reflexiva, elemento fundamental para sua formação integral. Negar essa oportunidade contribui para reprodução da alienação e da resignação diante das injustiças sociais.

Valorizar o domínio epistemológico das humanidades não significa apenas inseri-las no currículo. É fundamental que o ensino da filosofia, da sociologia, da geografia e da história se transforme em aprendizagens significativas. Isso exige formações continuadas de qualidade para os professores desta área, aquisição de livros, engajamento da gestão na melhoria da qualidade do ensino-aprendizagem e a promoção de práticas interdisciplinares, sem tratamento privilegiado para determinados saberes.

Diante desse quadro, vale o questionamento: será que o ensino das ciências dedicadas à interpretação da vida social, histórica e cultural é dispensável para a formação humana integral? E qual é a razão da indiferença às Ciências Humanas nas escolas?

De uma coisa podemos ter certeza: para a compreensão do mundo e da experiência humana são imprescindíveis múltiplos olhares, assim como uma abordagem interdisciplinar entre eles.

Sem o ensino significativo das Ciências Humanas, reproduzimos o senso comum, transformando problemas que são históricos em naturais ou em meras fatalidades.

Considero indispensável, de quando em quando, um retorno às reflexões do filósofo Arcângelo Buzzi: “Para merecer a arte de pensar, precisamos frequentar a realidade. Aqui o pensamento aprende a pensar. Fora dessa escola não há aprendizagem.”

Prof. Dagoberto Diniz

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