O Ceará foi a primeira província brasileira a abolir a escravidão. No dia 25 de março de 1884 o presidente da província, Sátiro Dias, anunciou: “O Ceará não possui mais escravo.”
A luta abolicionista ganha grande impacto em 1880, com a fundação da Sociedade Libertadora Cearense, que impulsionou movimentos populares e ações abolicionistas. Os primeiros resultados concretos dessas mobilizações surgiram em 1º de janeiro de 1883, quando a então vila de Acarape (atual Redenção), libertou seus 115 escravizados.
No mesmo ano, em 22 de outubro, Várzea Alegre também declarou o fim da escravidão em seu território, libertando seus 153 escravos e tornando-se a 15ª cidade cearense a realizar a abolição.
Em 24 de março de 1884, as cidades cearenses de Jardim, Milagres e Arneiroz aderiram ao movimento abolicionista. No dia seguinte, 25 de março, o Ceará consolidava oficialmente o fim da escravidão, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea.
Essa é a Data Magna do Ceará, símbolo maior da sua tradição libertária. A constância heroica dos cearenses quebrou as correntes da crueldade escravista, libertando a província das trevas da subjugação.
Além da ação das sociedades abolicionistas, das pressões internacionais e das resistências dos próprios escravizados, a abolição na Terra da Luz contou também com a bravura de trabalhadores livres que resistiram aos grilhões do cativeiro. Aqui vale citar, em nome de todos os outros, Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar” e José Napoleão, homens que se negaram a transportar, em suas jangadas, escravos do porto de Fortaleza para os navios negreiros.
É possível perceber que essa data, além de celebração, exige também cerebrações, muitas reflexões: será que a abolição significou a conquista do mundo pretendido pelos antigos escravos? Ou será que os negros apenas deixaram de ser escravos dos seus senhores e passaram a ser acorrentados por outros grilhões?
No Ceará, as correntes da escravidão foram quebradas, juridicamente, há 142 anos. No entanto, novas formas de escravidão e opressão surgiram: o racismo estrutural e as desigualdades sociais?
Apesar dos avanços, o Ceará e o Brasil ainda não podem celebrar a libertação do seu povo. Continuamos em processo de emancipação, combatendo o racismo e lutando pela erradicação do analfabetismo absoluto, e sem superar o analfabetismo político e funcional. Além disso, seguimos ainda presos às algemas das desigualdades sociais e vítimas do oportunismo da maioria dos nossos políticos, sobretudo no Congresso Nacional, que dificultam o avanço das políticas eficazes de superação do atraso social e econômico.
O trem das mudanças é dificultado continuamente pelas oligarquias econômicas e seus representantes no legislativo federal. Entretanto, resta o poder e a força do povo brasileiro para provocar as transformações sociais: os professores, os estudantes, os trabalhadores, os partidos e igrejas progressistas, os intelectuais orgânicos, os sindicatos. Somente a partir da organização e ação coletiva desses setores será possível remover as travas impostas contra o desenvolvimento político, econômico e social.
Os cearenses do século XIX conseguiram abolir o escravismo. Os cearenses e os brasileiros do século XXI, o que estão fazendo pela efetivação da justiça social?
Dagoberto Diniz
