O nascimento humano não é um fato simplesmente biológico. Representa também a inserção humana no universo das relações com o mundo e com o outro. Esses vínculos, nem sempre asseguram o sucesso e bem-estar coletivos. Homens e mulheres, sob a influência desse convívio, tornam-se vítimas da violência, não somente a que provoca a dor física, mas também, aquela que não deixa marcas no corpo, atuando na consciência, gerando no indivíduo oprimido a aceitação da sua condição de dominado como coisa natural. Esta é a violência simbólica, a agressão exercida por meio dos valores, das normas, da linguagem e da cultura.
Para o sociólogo francês, Pierre Bourdieu a violência simbólica consiste numa dominação em que os dominados aceitam como naturais e legítimas as estruturas que os oprimem. Assim, o dominado compreende como normal a sua situação. Permanecerá nesta condição enquanto não adquirir compreensão crítica da mesma.
As instâncias sociais que mais deveriam primar pela emancipação humana às vezes cometem desvios. Paradoxalmente, afastam-se de sua missão libertadora, tornando-se instrumentos de reprodução das desigualdades sociais.
Há ambientes em que o trabalho, em vez de oportunidade de integração e melhoria da produção, transforma-se em instrumento de tortura. Os trabalhadores nesses espaços são controlados pelo assédio moral, pela imposição do silêncio, da obediência, e pelas práticas de indiferença às reivindicações de direitos trabalhistas.
Quando a educação não promove a formação cidadã, torna a sociedade vulnerável à prática da violência simbólica. Nesse caso, ela se concentra na educação bancária, negando as metodologias mais eficazes para a formação de alunos críticos e atuantes.
Esse tipo de violência também pode acontecer na mídia. Isso ocorre quando certos meios de comunicação, ao invés de promoverem uma comunicação crítica, utilizam uma linguagem bem trabalhada com vistas a moldar a visão de mundo das pessoas e naturalizar o status quo. Nesse caso, as preferências e gostos transformam-se em padrões mais convenientes à indústria cultural.
A religião quando promove o discurso de legitimação social, mostrando a pobreza como destinação divina, e a mulher como nascida para cuidar da casa e ser subserviente aos caprichos do marido, realiza também a violência simbólica.
Aqui, é imperioso destacar que não há a intenção de desvirtuar o trabalho, a educação, a mídia, e a religião. Tais instituições, é essencial compreender, não são em si mesmas, instrumentos de dominação. Ao contrário, elas são vitais à sociedade e têm a sublime missão de emancipar homens e mulheres. Muitas delas permanecem fiéis à sua finalidade de desenvolvimento humano, enquanto outras se tornam indiferentes aos direitos sociais, funcionando como verdadeiros instrumentos de aprisionamento. Neste caso, elas devem ser questionadas, enfrentadas e, sobretudo, transformadas.
Em ambientes sufocados pela violência simbólica, disseminam-se o racismo, a misoginia, a homofobia e o negacionismo.
E, para evitar que essa violência invisível se instale, o que fazer?
O caminho sempre será a educação. Mas a educação que emancipa, em vez de aprisionar; a educação, enfim, que supera o senso comum e proporciona consciência crítica, fazendo do conhecimento uma forma de romper as correntes da dominação.
Quando a maioria das pessoas percebe as injustiças sociais como inevitáveis é sinal inequívoco de que as instituições, já mencionadas, sobretudo a educação, ignoraram a sua missão libertadora.
Convém não esquecer: a educação crítica apenas ilumina a caminhada. Conscientes e organizados, homens e mulheres fazem a história, conforme as necessidades gerais.
Rousseau, em O Contrato Social, já alertava: “Os homens nascem livres e por todos os lugares encontram-se acorrentados.”
Dagoberto Diniz
