A LEITURA, A ESCRITA E A OBSERVAÇÃO DO MUNDO

Ler e escrever devem compor o trabalho central da escola. Os livros, o papel, o lápis ou a caneta só produzem resultados satisfatórios quando plenamente utilizados em sala de aula. O exercício da leitura sempre acompanhado de interpretação, diálogo e produção textual contínuos, é uma prática indispensável à educação que almeja a formação integral

Machado de Assis foi um grande escritor, de estética singular e excepcional capacidade crítica. Para a sua formação intelectual foram essenciais a leitura dos clássicos, a observação do mundo, suas estruturas sociais e os diálogos que diariamente realizava com os homens letrados da época.

Pela leitura dos livros e da realidade, conhecemos o mundo e o próprio ser humano em seus mais variados aspectos. Por meio dessa atividade, adquirimos a capacidade de argumentar e questionar. Além disso, tornamo-nos aptos a enfrentar os desafios que, frequentemente, surgem em nossa vida.

Pela leitura dos livros e do mundo desenvolvemos a habilidade da escrita, atividade imprescindível para fazermos o registro das nossas reflexões e das nossas visões de mundo. Pela leitura podemos nos tornar grandes escritores.

A leitura e a escrita, sem dúvida, oferecem todas essas possibilidades. Mas é necessário lembrar que essas práticas devem acontecer de forma crítica e reflexiva. Ao falar da leitura, refiro-me não à realização mecânica da codificação, na pronúncia e na pontuação, mas especialmente ao ato de ler, sempre acompanhado da interpretação, dos diálogos e debates, do levantamento dos porquês e leitura das entrelinhas.

Para apreendermos a mensagem de um livro, os conhecimentos da gramática não são suficientes; é necessário, para tal mister, sobretudo, o exercício da reflexão e da interpretação do que se leu.

Que as escolas ensinem gramática está mais do que correto, mas é necessário também motivar os estudantes para as práticas de leitura, acompanhadas da reflexão, questionamento e debate. Esse momento deve ser seguido da produção textual, colocando a caneta e o papel em funcionamento, ou seja, o momento em que alunas e alunos dissertam, narram ou descrevem sobre as suas compreensões e percepções.

O conhecimento da gramática organiza a escrita. Mas o conhecimento das ideias, dos argumentos, e das diferentes relações sociais nos diversos contextos e sociedades, somente a leitura dos livros e do mundo poderão proporcionar.

O poeta Pablo Neruda ensinava que “Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias.”

Aqueles que pretendem enfrentar a redação em concursos e vestibulares devem estar atentos, não apenas ao estudo da gramática, mas sobretudo à leitura reflexiva dos bons livros e da realidade. Eis o caminho para encontrar as ideias que devem ser colocadas no meio.

Vejo que esse caminho inteligente de trabalhar a leitura e a escrita seja desenvolvido não apenas nas atividades diárias de sala, mas que acompanhe também as avaliações.

Hoje, quando o estudante vai responder a uma questão oferecida nas avaliações, ele fica restrito a marca um X na resposta correta ou incorreta. Ele não responde escrevendo seus questionamentos, ideias e argumentos. Tal procedimento não contribui para melhoria da produção textual, muito menos para o desenvolvimento da consciência crítica. É indispensável que alunas e alunos respondam escrevendo.

Se uma das buscas da educação é que os alunos despertem para a escrita, vejo as atividades e avaliações que exigem apenas marcar X, um grande empecilho.

É importante lembrar que esse trabalho com os livros, caneta e papel não deve partir apenas dos professores de língua Portuguesa, mas de todos os docentes, independentemente da disciplina que ministram.

A escola não pode esquecer que escrever à mão é uma atividade fundamental para melhorar a memória e aumentar a capacidade cognitiva. Não quero dizer que devemos evitar o computador. Apenas sublinho a importância da caneta e do papel nas nossas pesquisas e anotações.

Aos alunos bem comportados, obedientes e conformados, prefiro os inconformados e rebeldes diante das injustiças sociais.

Por meio da leitura e da escrita proficientes damos um grande passo na formação dos nossos alunos e, consequentemente para o desenvolvimento do país.

Dagoberto Diniz

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