A PESSOA HUMANA: DA APARÊNCIA AO MUNDO DO SER

Tem sido recorrente a forma de julgar alguém, tendo como medida a aparência. Reduzir a pessoa a essa dimensão é ignorar os valores que orientam a vida, as formas de compreender, sentir, imaginar; a sua interioridade, enfim. Somos muito mais do que um rosto, uma altura, um peso, a cor da pele e dos olhos, a qualidade dos cabelos e status social. Que alguém seja avaliado ou mensurado, desde que o seja a partir das suas atitudes, da sua trajetória, do seu projeto de vida, pela forma como encara os desafios.   

Julgar pela aparência é prática arraigada na sociedade. Frequentemente, com o primeiro olhar, as pessoas já são definidas, de forma positiva ou negativa. É de lamentar que esse procedimento frágil e equivocado seja empregado para compreender o ser humano. É necessário entender que além da aparência, homens e mulheres têm o seu mundo interior, que é complexo, não sendo, pois, pelas características externas que iremos conhecê-los melhor, muito menos defini-los.

 “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” já dizia Fernando Pessoa. Essa reflexão do poeta português define muito bem a verdadeira medida para avaliar e perceber a pessoa humana. Ou seja, que o indivíduo deve ser avaliado não pelos seus atributos externos e posição social, que são coisas irrelevantes e contingentes, mas pela sua capacidade de compreender e tratar o mundo e os outros.

A renda, a profissão, a formação acadêmica e o prestígio são traços insuficientes para apreender o ser humano na sua complexidade, na sua inteireza. Servir-se de tais predicados é atitude de desrespeito à dignidade humana.

Quem analisa o outro por meio das formas do corpo, da fala, da qualidade da roupa, do papel social demonstra cegueira epistemológica, revela estreita capacidade para conhecer e definir o outro e a realidade.  

Julgar pela aparência é uma forma rasteira e também desumana. Esse olhar excludente é profundamente prejudicial, principalmente aos pobres e às pessoas com alguma deficiência.

Muitas vezes homens ou mulheres são excluídos unicamente porque a aparência, o modo de falar, de se vestir e a posição que ocupam na sociedade não agradam. Assim, essa visão injusta e, sobretudo, obtusa, dissemina-se na sociedade como se fosse verdadeira.

Imaginem essa situação em uma sala de aula. Refiro-me àquele aluno que é visto como desinteressado pelos estudos e problemático, somente por ser introspectivo e isolado dos demais. Esse julgamento acontece com muita frequência em todo o Brasil, o que leva o estudante a se sentir rejeitado e, consequentemente, desmotivado para realizar as atividades escolares, chegando até a abandonar a escola. Seria mais eficaz conversar com os pais do aluno, para conhecê-lo melhor. Isso seria o mais apropriado para a compreensão do universo discente.

Avaliar pela aparência é fato corriqueiro também no ambiente de trabalho. Às vezes o empregado não agrada por algum aspecto incomum, por ser mais reservado e não participar das conversas do grupo. Nesse caso ele passa a ser visto com indiferença e muitas vezes se torna vítima de assédio moral.

Avaliar e julgar é difícil, requer cuidado, habilidade e grandeza da alma. Ninguém tem a sua personalidade, o seu caráter definido pelas suas qualidades físicas, estéticas ou pelo lugar que ocupa na sociedade. Quem julga alguém a partir de tais peculiaridades se autodefine, logo revela a sua desmedida ignorância.

Essa visão superficial é peculiar ao sistema capitalista, onde a realidade é vista exclusivamente pela ótica do mercado, onde o consumo é a medida que define o indivíduo, ou seja, que as pessoas são isso ou aquilo pelo valor da mercadoria que consomem. Quem adquire a melhor marca é melhor definido.

Datas como a Semana Santa, Dia das Mães, Dia dos Pais e o Natal, muitas vezes, são vistas não como momento de amor, carinho e confraternização, mas pelo que eles podem oferecer de lucro.

Quando o SER se torna secundarizado e o TER o definidor da pessoa é sinal indiscutível de que o mundo das aparências conquista e multiplica seguidores.

Mas, e aí?  Essa é uma situação irreversível e, por isso, devemos investir sem limites no mundo das aparências?  Ou será que é possível questioná-lo a fim de melhor transformá-lo.

Tudo depende da forma como compreendemos o mundo e as pessoas. Claro que ninguém nasce já com uma forma de julgar, sentir e agir, com uma visão de mundo e cosmologia pré-definidas. Essas são construções que se realizam a partir do nosso nascimento e se desenvolvem no contexto político e econômico juntamente com as interações que ocorrem no convívio familiar, nas relações sociais, na educação escolar, na igreja e, obviamente, por meio do potencial crítico e reflexivo do ser humano que emerge dessas relações.

A prudência no saber escutar, ouvir, ler, valorizar e viver dependem sem dúvida, da qualidade dessas vivências.

Devemos olhar a pessoa humana pelo que ela faz e projeta para o futuro. Julgar e condenar alguém que não agrada pela aparência e pelo seu estamento social é atitude medíocre e antipedagógica.

Dagoberto Diniz

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