Diante dos rumos da política brasileira, a curiosidade nos estimula a formular perguntas: Se a política deve buscar o bem da coletividade, por que alguns grupos governam e legislam ignorando o bem-estar da população e, ainda assim, continuam sendo eleitos? Além disso, fazer política é uma responsabilidade apenas dos políticos? As respostas a essas questões podem ser percebidas não apenas nos livros de filosofia e ciência política, mas também nas práticas de homens e mulheres que se elegem com a promessa de promover o bem comum.
A palavra política vem do grego “politiké”, que significa arte de governar a cidade, tendo em vista a realização de vida melhor para os cidadãos.
Comparando o conceito etimológico com a realidade contemporânea brasileira, percebe-se que a política do progresso social permanece como mera abstração. Conhecemos a satisfação do interesse coletivo apenas nos discursos demagógicos, nas páginas dos socialistas utópicos, na obra de Campanella e na Pasárgada dos versos de Manuel Bandeira.
A maioria dos políticos defendem e agem como defensores das vontades da elite econômica em detrimento da maioria dos cidadãos. Colocar o mandato popular na defesa dos direitos sociais da população tem sido uma prática ignorada por grande parte da representação política brasileira.
O Congresso Nacional é o palco dessas evidências. Leis benéficas aos trabalhadores e aos aposentados, medidas referentes à reforma agrária e a uma reforma para tributar as grandes fortunas, encontram imediatamente a rejeição por parte dos representantes da oligarquia financeira.
A verdade é que existe uma casta política destinada a defender os interesses da Faria Lima, ou seja, os interesses do mercado financeiro brasileiro. E o mais sombrio é que esses representantes da plutocracia foram eleitos pela maioria dos trabalhadores brasileiros. Isso é o que se pode chamar de traição, abandono do compromisso republicano.
No segundo semestre de 2026 elegeremos o presidente da república, os governadores, os senadores, os deputados federais e estaduais. Esse momento exige atenção e muita responsabilidade. Por meio da nossa escolha definiremos a classe política que conduzirá a nação pelos próximos quatro anos. Por isso, desde já, devemos realizar a avaliação crítica dos candidatos.
Aos que pretendem continuar na política devemos avaliar o que fizeram em favor do bem-estar da população. Quem trabalhou pela realização da justiça social, sem dúvida merece o voto. Já o candidato que votou contra os interesses do povo e preferiu proteger os privilégios da classe econômica privilegiada merece ser afastado vida da política.
Evitar tudo o que fere a dignidade humana, eis o princípio que devemos adotar nas escolhas que fazemos. Por isso, os candidatos conhecidos pelo comportamento contrário aos trabalhadores e aposentados, os racistas, misóginos, homofóbicos, elitistas, negacionistas, não devem ter a nossa aprovação para ingressarem na vida política. E essa oportunidade os eleitores brasileiros terão no dia 4 de outubro.
Além disso, compreendo como fundamental para o exercício pleno da cidadania, a nossa preocupação com a política, no sentido de estarmos presentes nessa atividade não permitindo que ela seja uma ação somente dos políticos profissionais.
O desenvolvimento de uma nação depende da política. Se a população não se interessar pela vida pública, políticos oportunistas poderão assumir a administração do país, o que é profundamente deletério ao desenvolvimento político, econômico e social brasileiro.
O dramaturgo alemão Bertolt Brecht profere um contundente alerta sobre os perigos da alienação política ao afirmar: “O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil, que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”
A política não é uma atividade nociva em sua essência; são os políticos vigaristas que a instrumentalizam, transformando-a em mecanismo de aquisição do poder irresponsável e de benefícios pessoais.
A política constitui uma atividade essencialmente voltada para a defesa dos direitos humanos. Permanecer neutro diante das desigualdades sociais é também uma forma de perpetuar a precariedade social, revelando omissão e fragilidade.
Antonio Gramsci compreendia que se omitir diante do sofrimento humano significa contribuir para a manutenção das injustiças sociais. Por isso escreveu: “Odeio os indiferentes (…)Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia. Por isso odeio os indiferentes.”
E vejam: tem muito candidato, não apenas omisso, mas também catalisador das injustiças sociais esperando o seu voto. É aconselhável identificá-los e, sobretudo, evitá-los.
É oportuno lembrar que candidato, vem de cândido. A etimologia sugere compararmos o discurso com a trajetória.
Diante disso, tenham cuidado com aquele discurso encantador e enganador do compromisso com o combate à corrupção. Muitos que prometeram extinguir a corrupção foram atraídos por ela e se transformaram em monstros de terno e gravata. As aparências enganam muito.
Estamos com frequência assistindo aos combatentes da corrupção envolvidos nos mais hediondos episódios de depravações morais e financeiras. E o que é pior: estão pedindo mais uma chance. E você, irá atendê-los?
Tudo ainda conforme a reflexão do genial Nietzsche, em Além do bem e do Mal (1886): “Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro.”
Prof. Dagoberto Diniz

